- Não quer esperar eu passar um café?
- Hmm… proposta tentadora, mas acho melhor não. Já vai amanhecer…
- E qual o problema?
Ela me olha com cara de “você sabe” enquanto ajeita no belo e pequeno magro corpo a camisa amarela de malha vagabunda.
Sai do quarto prendendo os cabelos enquanto eu ainda me esparramo pela cama.
- Ei, onde eu acendo a luz do banheiro?
Não tem jeito. Tenho mesmo que levantar. E até que sou rápido nisso, mas sempre me enrolo na hora de achar meus chinelos.
- Pronto!
- Brigadinha! – diz enquanto abre um sutil sorriso amarelo. E se o cheiro combinado de cerveja + cigarro não é o melhor possível, tudo bem. Em horas como essa não chega a incomodar.
Ela volta ao quarto, eu lavo meu rosto. E de uma vez por todas, eu preciso me barbear! Isso coça, esquenta, incomoda, mas sempre em que penso em tirá-la, alguém como ela vem dizer que “essa barba lhe caiu muito bem, viu?”. Assim eu deixo pra lá, sabe como é…
- Cadê meu cigarro? Você viu?
- Não vi não! Você trouxe pra cá?
- Filho da puta!
- Que foi?
- Ah! Dane-se! Compro outro ali fora.
- Eu, ein…
Enquanto me espreguiço em pé, ao lado da cama, ela abre meu armário e se olha no espelho. Retoca o batom, confere os cabelos. Vira de costas, olha pra trás, ajeita sua jeans.
Vou à cozinha e preparo a cafeteira.
- Não quer mesmo esperar um gole?
- Gostaria, mas estou sem tempo.
- Tudo bem.
- Então… já vou indo.
- Ok. Eu… te ligo?
- Hmm… talvez. – e vai em direção a sala.
- Deixa a porta aberta, por favor.
- Oi? Por que?
- Já vou aí. Quero te ver descendo o corredor.
- Mas… nos vimos a noite toda!
- Vimos? Bem… pra mim… aquilo tinha outro nome.
- Bobo! – diz enquanto ri.
E quando some de minha vista, me sirvo uma boa xícara de café. Caminho lentamente até a sala e me apoio no portal. Saco do bolso o isqueiro e o amassado maço que escondi da pequena em meio a noite anterior, acendo meu primeiro cigarro nos últimos três anos e a observo, meio apressada, descendo as escadas do prédio.
No silêncio do dia que amanhece, entre o vapor do café e a fumaça do cigarro, quase vejo o velho Dylan vindo pra me dar razão.
Talvez seja verdade. Os ventos da mudança estão soprando novamente.


