Amadurecimento é uma palavra complexa quando o assunto é a trajetória de uma banda ou de um artista ao longo dos anos. Quantos não são os grupos que, por inúmeras razões, encontram seu fim pouco após o nascimento? Ou ainda os que estacionam na adolescência e se negam a sair de lá, passando o resto da vida presos à frases como “seu namorado é isso”, “a culpa é toda sua”, ou – e esse é um caso extremo – “cada poça dessa rua tem um pouco de minhas lágrimas”.
Há também aqueles que, em busca de reconhecimento, respeito, “novas possibilidades” ou seja lá mais o quê, perdem o rumo após um ou dois discos e, como na vida real, chegam à “fase adulta” confusos, perdidos, sem muita certeza de quem se é e de quem se pretende ser.
Felizmente, há ainda aquelas bandas que, com o passar do tempo, aprendem, entre erros e acertos, a burilar suas influências, definir suas pretensões e encontrar sua identidade, tornando-se, enfim, relevantes. Permanecendo entre bandas do underground nacional com lançamentos em 2007, podemos citar três nomes que se encaixam nessa categoria: a goiana Violins, a curitibana Terminal Guadalupe e a carioca Alice.
Alice teve seu início no ano de 2003, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, como um exemplo típico de banda com tudo para dar errado. A começar pelo nome. Formada inicialmente pelos amigos Cícero Lins (guitarra e voz), P.V. (guitarra), Rodrigo Abud (baixo) e Higor (bateria), que tinham em comum a média de 16 anos e o gosto por grupos como Nirvana, Silverchair, Offspring e congêneres, a banda passou um ano atendendo pelo péssimo nome de Mary Jane e tocando canções toscas calcadas no grunge e no punk.
Após a gravação de Demo I, registro dessa primeira fase, a história começa a mudar. Com as primeiras composições gravadas, o grupo percebe que o nome Mary Jane não serviria para representar o novo direcionamento musical pretendido e, na busca por um nome simples, decidem mudá-lo para Alice. É também nesse momento que a banda volta a atenção para grupos como Pixies, Radiohead e Interpol (algo fácil de se constatar através da citação nada sutil de Obstacle 1 na música O Fim, parte da primeira demo da banda), fortes influências no amadurecimento da recém-batizada Alice.
A medida em que a adolescência dos músicos ia chegando ao fim, o grunge da fase Mary Jane e Demo I era definitivamente posto de lado. E foi dessa forma que a banda chegou ao lançamento de Anteluz, em 2005, repleto de bons momentos, tanto nas músicas, quanto nas letras. Cícero, responsável pelas composições, passa a citar nomes de poetas como Carlos Drummond de Andrade e Pablo Neruda, além de compositores como Chico Buarque e Moska (cuja letra de Um e Outro foi assumidamente parafraseada em A Casa Vazia, dos versos “eu falo, você escuta / eu calo, você me culpa / desculpa, desculpa…”) entre suas influências.
Num Rio de Janeiro repleto de pequenos clones de Strokes e imitações baratas de Los Hermanos, Alice começa a se destacar pelo diferencial de suas músicas, ainda mais influenciadas por Interpol, mas também com algo de bandas ainda mais alternativas, como David Bazan e seu Pedro The Lion, por exemplo.

No início de 2007, depois de duas pequenas mudanças na formação (primeiro a adição de mais um guitarrista, Gilson Abud, e a substituição do baterista Higor por Paulo Marinho), Alice lança Ruído, aquele que pode ser considerado seu primeiro registro definitivo e – por que não? – “adulto”.
Gravado no Limongi Stúdio, no Rio de Janeiro, entre fevereiro e maio desse ano, Ruído é a prova do quanto uma banda pode alcançar a maturidade com o passar do tempo. Já nos primeiros minutos 8h00min, música de abertura do novo trabalho, percebe-se que, finalmente, Alice encontrou o seu caminho, a sua cara – impressão confirmada ao longo dos pouco mais de trinta minutos de duração do álbum, diga-se de passagem.
Segundo o dicionário, ruído pode ser entendido como “toda fonte de distúrbio ou deformação de fidelidade na transmissão de uma mensagem visual, escrita ou sonora”. Sendo assim, a banda tomou para si a idéia de criar um disco repleto de efeitos, chiados e outros recursos de “deformação de fidelidade” na transmissão da mensagem. Um dos primeiros pontos a serem observados nesse sentido é o fato de que nenhuma das dez músicas do álbum possui título. Ou melhor, possui. A exemplo de 8h00min, cada uma das faixas é batizada com um horário, como 9h10min, 12h07min e 15h25min. A explicação? De uma maneira não muito simples de entender, o álbum é permeado por uma história que envolve fotografias, pedidos de casamento, uma casa vazia, lembranças… e um personagem se questionando sobre cada um desses pontos ao longo de um dia completo, das oito da manhã à meia-noite e um seguinte.

Ok! De fato a história de Ruído não é das mais fáceis de se entender. Ainda assim, o álbum é repleto de boas letras, de rimas bem construídas e de versos nada óbvios. “Pra cada tombo, um passo / É muito pouco espaço / Pra cada sono, cedo / Pra cada medo, nego / É quase tudo falso”, de 8h00min, ou “As vezes te insulto, Maria / De fato eu não mudo / Pra que jurar se a foto é surda? / Calma…”, de 12h07min (inspirada em Anos Dourados, de Tom Jobim e Chico Buarque, e no poema Caso Pluvioso, de Carlos Drummond de Andrade, que recebem os devidos créditos no encarte) são bons exemplo de como uma banda pode evoluir com o passar dos anos, deixando para trás bobagens como “Atropelamentos são uma coisa normal / Meu presente de natal” e “A vida não é cruel / você que é bom demais”, de Paranóia, presente no registro da primeira fase da banda.
A primeira metade de Ruído já o faz valer a pena. Nela, destacam-se 9h10min e 15h25min, as mais próximas de serem consideradas os “hits” do álbum. A iluminada 15h25min, aliás, recorre à auto-referência para provar que Alice pode apresentar coisas bem mais interessantes do que as que vinha apresentando até então. Sem dúvida uma das melhores composições do grupo, há nela a mesma citação à Obstacle 1 experimentada na já tão distante e inocente O Fim. E assim, a banda remete ao passado para mostrar o quanto mudou de lá pra cá.
A segunda metade do disco, por sua vez, também não faz feio. A começar por 17h12min, de sonoridade shoegazer, que recorre ao mesmo recurso de auto-referência experimentado na faixa anterior – dessa vez com ainda mais clareza, sobrepondo os versos do refrão de O Velho Baú, presente em Anteluz (“Você pode ir embora / e me deixar de fora / voltar pro seu lugar / jogar meu soro fora”), aos versos “Faz de conta que alguém te chamou lá fora / você não vai mais embora? / Vai lá…”, criando um jogo de palavras interessante. Há ainda a curiosa 17h21min (algo entre Radiohead e Los Hermanos, cuja letra põe abaixo os planos de um relacionamento duradouro – e a única não disponível para download na página da banda no Trama Virtual), 20h00min e novos ecos de Anos Dourados, de Tom Jobim e Chico Buarque (cuja melodia remete de imediato), e finalmente o interlúdio 23h59min (composta por dois únicos versos: “Abre a porta pra mim / Abre essa porta pra mim”), que prepara terreno para a suave 00h01min, que encerra o álbum com um clima próximo à Sapato Novo, presente no derradeiro álbum dos Hermanos.

A saída da adolescência e a chegada à vida adulta (bem como todas as dificuldades relacionadas a isso), os novos livros na cabeceira e novos discos no som, os shows feitos após o lançamento de Anteluz, a entrada de mais um guitarrista e a troca de baterista, entre outras coisas, contribuíram para que Alice encontrasse sua maioridade. Impressiona saber que Ruído – um complexo caldeirão em que nomes como Chico Buarque, David Bazan, Los Hermanos, Interpol, Neruda, Sonic Youth, Radiohead, Carlos Drummond de Andrade e outros se misturam e se completam de tal forma que seria injusto apontar apenas um deles como maior responsável pela guinada criativa da banda – é fruto do trabalho de cinco jovens com média de 20 anos de idade.
Felizmente esse não é mais um dos muitos exemplos de bandas que estacionaram na adolescência. Felizmente o grupo que tinha tudo para dar errado, resistiu. E é claro, felizmente, depois de erros e acertos, Alice tornou-se enfim uma banda relevante.