Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.
[TREVISSAN, Dalton. Apelo]
Me deparei com esse texto enquanto dava uma olhada em algumas provas antigas de concursos públicos. Tem esse clima de nostalgia que eu tanto gosto (“sempre tem alguém indo embora…”) e encontro mais em canções do que em palavras.
Não costumo postar textos de outros por aqui, mas aí está. Abro essa exceção.
Dezembro 10, 2007 às 9:54 am |
Isso me lembrou “Requiem”, não sei pq…
mto bom!
Dezembro 13, 2007 às 3:35 am |
Faltam palavras para expressar o quão belo é o texto.
Muito bonito mesmo.
Vou até procurar mais sobre o autor!!
Dezembro 13, 2007 às 4:42 am |
muito bom!