Archive for setembro \30\UTC 2006

Caixa Preta

setembro 30, 2006

Um avião da Gol que ia de Manaus para Brasília desapareceu sobre o Pará nesta sexta-feira (29), com 155 pessoas a bordo, de acordo com Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

O vôo tinha o número 1907, saiu de Manaus às 14h36 e tinha chegada prevista para as 18h10. Segundo o site da Gol, os passageiros poderiam fazer conexões, com outros números de vôo, para São Paulo ou Rio de Janeiro.

De acordo com informações iniciais, o avião da Gol colidiu com outro de pequeno porte. A companhia aérea confirma o desaparecimento da aeronave, mas não informa mais detalhes.

A Força Aérea Brasileira (FAB) enviou um avião C-99 de Anápolis (GO) e um C-130 do Rio de Janeiro em missão de busca e resgate ao local aproximado do acidente.

Neste instante os amigos e familiares que esperavam os passageiros do avião em Brasília estão sendo colocados em um ônibus para serem levados embora do aeroporto. A Infraero vai dar uma coletiva logo mais.

Fonte: Agências Globo

Notícia de ontem e… ok! Uma hora dessas já sabemos um pouco mais sobre o acidente, como, por exemplo, a cidade em que o avião caiu, sobre ter sido uma queda vertical e sobre não haver sobreviventes. Porém, independente do tamanho da tragédia, ao ler sobre avião-caindo-na-floresta é impossível não lembrar do vôo RG-254, que no domingo do dia 3 de setembro de 1989, caiu em meio à escuridão da selva amazônica.

NÃO! É claro que eu não lembro do acidente (nesse dia eu deveria estar… sei lá… andando dentro de casa no velotrol em forma de carro de formula 1 que fazia a alegria dos meus parcos cinco anos de idade). Assim como eu também não lembro do incêndio no brasileiro RG-820 (afinal, em 1973 eu sequer sonhava em nascer!) ou do seqüestro do VP-375, em 1988 (na verdade, lembro va-ga-men-te desse sim… afinal, o cara queria – e, não fosse o fato do avião estar cheio de inocentes, eu lamentaria profundamente por ele não ter tido sucesso – lançar o avião sobre a cabeça do então presidente José Sarney).

Ivan Sant’anna lembra. Está tudo ali, brilhantemente registrado no livro Caixa Preta: O Relato de Três Desastres Aéreos Brasileiros (Rio de Janeiro: Objetiva, 2001). Independente de sua formação e experiência serem ligadas aos números, e não aos textos (formado em Mercado de Capitais, Sant’Anna trabalhou no mercado financeiro por 37 anos), Ivan escreve melhor do que muito jornalista por aí. Não reduz seu livro a mera copilação de informações oficiais. Vai longe, abre as cortinas, dá vida às palavras ao traçar com maestria os perfis de seus personagens, sejam eles pilotos, garimpeiros, atrizes ou empresários.

Caixa Preta é um exímio livro-reportagem, e é leitura mais que recomendada para qualquer um que se interesse por acidentes aéreos ou por bons textos de literatura da realidade (não é a toa que ele é um dos títulos citados na bibliografia do meu TCC).

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3 segundos (again)

setembro 29, 2006

texto por JW e arte por Douglas Félix

Versão com desenhos que o Doug fez para o texto que postei aqui há alguns dias.

ps.: se alguém entendeu o último quadrinho, por favor, me explique!

ps2.: qual é a dessa barbinha no cara do desenho?! heheh

Pequenas considerações em aberto (p/ Lu)

setembro 29, 2006

Ok! Sei que tem virado hábito e que hábitos tendem à rotina, mas… como evitar?! Todo final de mês, mais precisamente todo dia 29, me ponho a escrever basicamente sobre as mesmas coisas: o quanto estou feliz; o quanto sou feliz; o quanto você me faz ser e estar assim; e o quanto, a cada instante, tenho ainda mais certeza de que quero ver realizado meus pequenos planos para longo prazo.

(Apenas quatro meses, e já estou parecendo meu coroa, com sua mania de… surpreender minha mãe, dando buquês de rosas como presente de aniversário.)

Não é preciso ser muito esperto para perceber o quanto as coisas mudaram ao nosso redor, o quanto eu mudei, o quanto você mudou durante esse tempo.
Nada é exatamente a mesma coisa que era até 28 de maio de 2006.

Pouco tempo Eu sei. Nós sabemos. E a cada dia que passa, esse tempo parece ser ainda menos diante do que temos pela frente.

Juntos.

Elliott Smith

setembro 27, 2006

Cara, o que é que você tem na cabeça? Isso vai ser transmitido para o mundo todo. O MUNDO TODO, entendeu? É… é o Oscar, entende?! E você… com esse terno, que era para ser… branco (bran-co!), todo encardido, parecendo um mendigo?!

Você tá chapado, não está? Não duvido nada! Deve estar chapadão! Olha sua cara… de chapado! Essa cabeça quadrada com esse cabelo despenteado e… ah! Vai ver você só está nervoso. Também pudera, né? Você nem queria estar aqui! Primeiro mandam um convite, que você gentilmente recusa. Depois, dizem que vão colocar o cuzão do Richard Marx para cantar a sua música. Então você resolve aceitar o… “convite”… para disputar contra a Celine Dion! Você escreve a letra, pega o violão, compõe uma bela canção para um filme legal, e no fim os caras dizem pra você “Hey, Smith! Miss Misery é boa e tudo, e até que ficou bem na trilha do Gênio Indomável, e agora falta o aval dos dinossauros da academia para sabermos se ela é ou não tão boa quanto aquela do Titanic!”. TITANIC, cara! My Heart Will Go On! Leonardo DiCaprio de braços abertos na proa gritando “Eu sou o rei do mundo”! E você ainda tem que vir aqui, dar as caras para o mundo todo como se estivesse se perguntando “É mesmo! Será que minha música é tão boa quanto a dela?!”
Agora eu acho mesmo que você está é nervoso. Tão nervoso que acabou engolindo um trecho da sua própria música. Sequer consegue esconder das câmeras a expressão de insatisfação. Puta merda, ein, Elliott! Mas relaxa! Você acha mesmo que essa velharada ouviu a original da sua música? Quero dizer… você não tem chances de ganhar. Nunca teve. O prêmio estava com Dion desde o começo, então… quem se importa?
Não você, não é mesmo, garotão?

Sai devagar, cara…
Ignore esses aplausos…
Esses babacas hipócritas não vão mais querer saber de você, nem mesmo se enfiar uma faca no seu peito daqui uns cinco anos.
**********

Assista Elliott Smith interpretando Miss Misery no Oscar de 1998.
Baixe a discografia oficial de Elliott Smith.

20 anos?!

setembro 27, 2006

Há um problema em se dizer, em 2006, que o novo disco de sua banda será uma das melhores coisas já lançadas nos últimos 20 anos: acreditar que será melhor que Disintegration (The Cure, 1989), Grace (Jeff Buckley, 1994) e The Bend’s (Radiohead, 1995). Foi aí que errou Brendon Flowers, vocalista do The Killers, nas pretenciosas declarações a respeito de Sam’s Town, o novo álbum de sua banda, que já pode ser encontrado pela web.
Talvez se ele tivesse dito “um dos melhores dos últimos cinco anos”, a pretenção seria menor e mais fácil de ser atingida. Killers é SIM uma das grandes bandas dessa década, marcada pela eleição de uma nova melhor-banda-de-todos-os-tempos (que normalmente é algo tão sem graça que nem deveria ser citada como “melhor” em qualquer lista que fosse) a cada duas semanas. Não é absurdo esperar que o primeiro grande álbum do chamado “novo rock” (não, ele AINDA não existe – e não venha falar de Is This It, ou de um dos dois do Franz Ferdinand e, muito menos, de coisas como… Arctic Monkeys) possa sim surgir das mãos da banda de Flowers.
Mas ainda não foi dessa vez.

Sem rodeios: Sam’s Town é um ótimo disco, um pouco mais equilibrado que o disco de estréia da banda (irregular, apesar de algumas excelentes faixas), pegajoso e com boas chances de entrar na galeria dos Tops… de 2006 (barrando inclusive o bom Civilian, do Boy Kill Boy, que, por vários momentos, soa um tanto Killers).  Só não dá para sequer imaginá-lo como “O” disco dos últimos 20, ou mesmo dos últimos 10 anos.

Procure o seu por aí. E, se encontrar alguma versão sem falhas na primeira música, avise-me!

3 segundos

setembro 25, 2006

Suor sutil escorre de sua pele,
Sorriso lento surge no seu rosto.
Eu, sem chão,
Absorto
Absorvo
O bom calor que emana de seu corpo.

Seu perfume fica nos meus braços,
Minhas mãos se firmam dos seus lados
(Abraços).

Unhas quase rasgam os meus ombros
E como fogos
Explodimos
(Escombros…)
Entre juras, promessas, e risos
Em pouco mais de alguns segundos,
Somos nós dois,
Somos todos, somos tudo,
Somos o mundo
E somos muito mais que isso.

o Voto

setembro 24, 2006

A boca ainda amarga um pouco o gosto do etanol barato da noite passada. Espero não ser sinal de um resfriado vindouro (ainda mais depois de ter passado duas horas em alta madrugada me escondendo da chuva repentina e torcendo pelo primeiro ônibus do dia, ou carona de um conhecido, de uma ambulância, de um camburão, de QUALQUER coisa), mas minha cabeça dói.
E vai doer ainda mais…

Lá vem…

Uma maldita e barulhenta carreata intitulada “carreata da vitória” se aproxima. Fico me perguntando que espécie de acordo escuso pode ser capaz de tornar aliados dois bicudos como um candidato peemedebista ao cargo de deputado estadual (pela milésima vez) e um senhor feudal, digo, um prefeito petista de cidade do interior, que já protagonizaram interessantes discussões.

Lá vem…

O jingle mais irritante da história fica cada vez mais alto.
Fogos. Fogos. Beijinhos e acenos (tchauzinhos cínicos, sorrisos plásticos).
E mais fogos.

Tento me distrair lendo o blog do Marcelo . E lá está… a letra. Lá está… a música.
Faço o download. Aumento as caixas de som.

Lá vem…

Dou o play.

Estão chegando.

A voz surge entre as guitarras com os versos “imagine uma eleição em que ninguém fosse eleito” e “seja alguém, vote em ninguém”.

E lá vão eles. Sem sequer apertarem a campanhia de meu barraco.

Felizes somos nós que, em 2006 – 25 anos após “Vote em Branco” ter sido composta pela Plebe Rude – podemos cantá-la sem a preocupação de sermos presos por isso (como os integrantes da banda, naquele clássico episódio de Patos de Minas, em 1982).
**********


Imaginem uma eleição em que ninguém fosse eleito
Já estou vendo a cara do futuro prefeito
Vamos lá chapa, seja franco
Use o poder do seu voto, vote em brancoVote em branco!

Seja alguém, vote em ninguém
Seja alguém, vote em ninguém
Seja alguém, vote em ninguém

Esquerda direita, em cima em baixo
Você assim e eu assado
Quando vamos para de tomar lados?
Quando vamos parar de ser enganados?

Enganados!

“Você está sentado no bar, num happy hour tomando um choppinho no fim de tarde, quando entra um cara cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’. Você olha pra ele, não presta atenção, acha que é um louco. Agora, duas pessoas. Duas pessoas entrando no mesmo bar cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’. Vão achar que são dois palhaços, ainda não vão prestar atenção. Mas agora são dez pessoas em volta do bar marchando e cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’. As pessoas vão colocar os seus chopps na mesa e vão prestar atenção. Elas vão achar que é uma gang. Agora temos 100 pessoas andando pela rua e cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’ atraindo mais e mais pessoas. As pessoas vão ver que é um movimento, elas vão aderir. E é isso mesmo. Elas querem mandar uma mensagem. E a mensagem é essa: Estamos de saco cheio de não sermos representados. Estamos de saco cheio de só sermos lembrados de quatro em quatro anos quando vocês querem nossos votos. Vocês não nos representam, por isso vamos ser alguém e votar em ninguém”.

[Vote em Branco – Plebe Rude].

**********

ps.: diz aí, Carina… em quem seu pai vai votar? hehehe

o outro Damião

setembro 23, 2006

(f)Luana(f) diz:
que é isso que você está ouvindo, amor?

8-| jw diz:
ah! é o tal do Damien Jurado!

(f)Luana(f) diz:
Jurado? eu só conheço o Rice mesmo… rsss

8-| jw diz:
pois é! eu sempre via o nome desse cara por aí, mas nunca tive curiosidade de baixar nada… aí fui pegar o disco novo dele e adorei!

(f)Luana(f) diz:
e como é?

8-| jw diz:
lembra o Way To Blue, aquela coletânea do Nick Drake que gravei pra você? é +/- por ali; a voz dele, pelo menos nesse disco de 2006, me lembrou bastante!

(f)Luana(f) diz:
hmmm! então acho que vou gostar! grava pra mim?

8-| jw diz:
sim, sim! deixa só eu completar a discografia que aí gravo tudo de uma vez! =D

(f)Luana(f) diz:
aeeee! =D

Baixar toda a discografia de alguém que lança pelo menos um trabalho novo por ano desde 1997 não é a coisa mais fácil do mundo. Principalmente se estamos falando de alguém não muito conhecido fora do círculo de iniciados.
Demanda tempo. Demanda boa vontade de pessoas como o Luiz, do blog young hotel foxtrot, onde consegui tudo do Damien Jurado que tenho por aqui (sete dos nove álbuns oficiais, e um dos EPs).

Que fique claro, portanto, que ainda não sou a pessoa mais indicada para falar de Damien Jurado. O que não me impede de deixar aqui registradas as minhas primeiras impressões sobre o segundo Damião a ocupar o meu playlist

Jurado é o tipo de artista que (quase) todo fã de Nick Drake adora conhecer. O tipo de artista que, munido unicamente de sua voz (por acaso, capaz de, por vários momentos, lembrar o próprio Drake) e de um violão, pode soar descomunalmente triste, enquanto, quando acompanhado de guitarra / bateria / baixo, pode soar levemente ensolarado (como em Wedding Cake ou em Space Age Mom, faixas de seu primeiro disco, Water Ave. S., de 1997) – mas não confunda “ensolarado” com “feliz”, “alegre”, “fofinho” ou qualquer coisa que o valha – ou… hmmm… furioso – e não que isso signifique soar como um paspalho revoltado.
Na maior parte do tempo, independente de estar ou não mais próximo do folk do que do chamado sadcore ou do rock alternativo da escola Sebadoh, Damien Jurado soa MESMO amargurado. No fundo, é como se fosse aquele gordinho tímido da escola em que você cursou os primeiros anos de estudo, capaz de rir sozinho no seu canto das coisas mais simples possíveis, depois chorar por todas as humilhações sofridas, seja nas mãos dos valentões ou da menina mais popular da classe, e em seguida, bolar os mais cruéis e secretos planos de vingança.

Independente porém do fato de ter nascido na Meca do rock alternativo estadunidense (leia-se Seattle, Washington, terra de você-sabe-quais-bandas), o ponto forte do trabalho de Jurado está nos momentos mais… introspectivos, nas muitas faixas acústicas (como quase todo o disco novo, And Now That I’m In Your Shadow), nos momentos mais… hmmm… melancólicos.

É como se o gordinho em questão abrisse mão de seus planos de vingança.
**********

Chora não, gordinho!

Como disse no começo do texto: que fique claro que ainda não sou a pessoa mais indicada para falar de Damien Jurado ( que-fique-claro-que-ainda-não-sou-a-pessoa-mais-indicada-para-falar-de-Damien-Jurado). Descobri há pouquíssimo tempo (estou quase completando a discografia, mas preciso do devido tempo para degustá-la como se deve), achei incrível e não consigo parar de ouví-lo. Mas, ainda assim, não sou a pessoa mais indicada para falar sobre ele (não-sou-a-pessoa-mais-indicada-para-falar-sobre-ele).

Pouco importa.

Depois de minhas primeiras impressões, posso indicá-lo a pessoas que gostam de singers/ songwriters (só para me ater nos mais ou menos conhecidos) tão diferentes entre si quanto Nick Drake (óbvio), Bob Dylan, Cat Power, Elliott Smith, John Frusciante e Damien Rice, e mesmo bandas (também tão diferentes) como Sebadoh, Wilco, Low, Pedro the Lion ou Pearl Jam.

Só não vá esperando que ele seja exatamente igual a qualquer um dos nomes citados. Ele NÃO é.
**********

Agora larga de ser preguiçoso e vá baixar os discos que o Luiz já postou no blog dele!

EP:
1999 –
Gathered in Song

ÁLBUNS:
1997 – Water Ave. S.
1999 – Rehersals For Departure
2000 – Ghost of David
2002 – I Break Chairs
2003 – Where Shall You Take Me?
2005 – On My Way To Abscense
2006 – And Now That I’m In Your Shadow

**********

ps.: não resisti e acabei gravando algumas coisas do cara no último cd que preparei para a Lu (ler “como Dick & Anna“) e sim, ela gostou.
ps2.: And Now That I’m In Your Shadow ainda sequer foi lançado, o que, segundo o site oficial de Jurado, vai acontecer no dia 10 do próximo mês.

frescuras

setembro 22, 2006

Reparem na barra lateral e… olha aí que legal! Agora dá para saber as bandas que mais ouvi na semana que passou e, descendo mais um pouco, o que eu estou lendo atualmente.

Grande coisa, né? 

como Dick & Anna

setembro 19, 2006

Tec, tetec, tec. Tec. Tec. Tetec. Tec.

Ela digitando.

Humpf…

Eu, deitado na cama, olhando para o teto enquanto espero, pacientemente, a hora em que ela vai enfim sair do computador e ir para seu banho.

Nem ligo. Quase quatro meses. Já até acostumei.

– Bonita essa música!

– Ah! É “Amie”, do Damien Rice. Bonita mesmo, né?

Ok! Damien… Rice. Damião Arroz! Simone… novela das oito… Ana Carolina… Seu Jorge… ok! Até que eu gosto dele, tenho um ao vivo lá em casa, perdido entre as dezenas de cds de mp3, devo ter ouvido umas 3 vezes, mas… me diz… como não se irritar com – não-posso-paraaaaar-de-te-olhaaaaar – versões-lixo-em-português (duas de uma só vez, tocando em uma mesma época, meses seguidos, sendo uma com a… Simone – “então é nataaaal” – e outra com a Ana Carolina, em companhia do… Seu Jorge, o homem que regravou Rebel Rebel com o título de Zero-a-zero!)? Como evitar que a irritação vire repulsa e acabe sobrando para o compositor da pobre e vitimada canção original?

E é por isso que não ouço Damien Rice há um ano ou mais do que isso.

– É sim.

– Você gosta de Damien, amor?

Ô

Qual é?! Eu não menti, menti? Eu gosto, ué! Só não ouço há um ano ou mais e a simples possibilidade de ouvir o… hmmm… verso “é isso aí” após a introdução de The Blower’s Daughter me dá calafrios. Mas eu gosto. É sério.

– Essa daí eu conheço! Belle & Sebastian! Não sabia que você gostava deles!

– Hein? Mas… isso é Damien!

– Não, não. É Belle! Eu conheço essa música. Não lembro o nome. – e é aí que eu percebo que – caramba! – há bastante tempo que não ouço nada desse grupo! E nem sequer tenho a desculpa das versões-lixo-em-português.

– Minha prima baixou como se fosse Damien.

– Mas é Belle.

– Será?

Será não. É. É I Fought In A War, primeira faixa daquele disco de 2000 que tem um nome grande pra cacete. E ela gosta da música e me pede para gravar um CD com Belle & Sebastian e outras coisas que “você sabe que eu iria gostar de ouvir”.

Um CD. Apenas um CD. Não em áudio. Em mp3. Mesmo assim… um infinito de nomes me passam pela cabeça. Um CD. Apenas UM. Muito pouco!

Rob Fleming me ajude.

Perdoem, mas… fu-deu!

***********

Violão, voz e uma dose forte de tristeza. Lá vai a coletânea do Nick Drake. E também o ao vivo piratão do Damien Rice, e com ele, a cover que o cara fez de Creep. E eu sei que ela gosta de Radiohead, então, vai também a gravação que o Jamie Cullum fez de High and Dry, o que me faz lembrar que o Cullum também gravou Lover, You Should Have Come Over, do Jeff Buckley, e como sou um dos que acredita que Grace foi um dos melhores – se não o melhor – álbuns da década de 1990, o coloco entre os outros discos. E já que o CD já está cheio de versões, Katie Melua vem com Lilac Wine e Just Like Heaven, essa última, cover para The Cure, trilha de “E se fosse verdade” (ela gosta de comédias românticas, e foi ótimo assistirmos esse filme juntos).

Do Snow Patrol, Chasing Cars (de certa forma, “nossa música”), e Run, e Chocolate. E claro, não posso esquecer de algo de Belle & Sebastian.

Mas… cadê o próprio Radiohead (que sacrilégio! Ela não tem o The Bend’s!)?! Cadê essa turma contemporânea – ou nem tanto – de emuladores de Nick Drake, como Iron & Wine e Mojave 3? Cadê o Bright Eyes? A Cat Power? Cadê o outro Damien, o Damien Jurado, que eu, perdido no espaço e no tempo (a despeito do cara estar gravando desde 1997), só vim conhecer há algumas semanas? Cadê os solos da Isobel Campbell, algo do Kent, o novo do Gram, Rilo Kiley, The Dears e tantos mais? Cadê?!

Resisto à tentação de jogar tudo fora e bolar um novo CD, e entrego assim mesmo, com a resalva de que deixei de fora muitas coisas que gostaria de lhe apresentar.

Faço questão de frisar que, por mais que pareça, não quero ser como o Dick, de Alta Fidelidade, assumindo com sua Anna um tom professoral do tipo “isso-você-deve-ouvir”, “isso-você-não pode-ouvir”, mas ela me tranqüiliza, diz que não estou sendo assim, e que gostou das coisas que gravei, e me pede para gravar outros CDs do tipo.

Ufa! Outros CDs. Outros, com destaque para a letra “s”.

Quanto aos gostos, temos nossas diferenças, mas também as similaridades. De certa forma, agora ela ouve Belle & Sebastian (e eu também voltei a ouví-los), e meu medo de Damien Rice passou sem grandes esforços.

Eu sei. Eu a soterraria de discos se não me controlasse. Mas temos tempo, muito tempo.

Um pouco de cada vez. Um disco por dia, talvez.

Não. Tô brincando. Um por semana. Algo por aí. Ou não.

Não temos pressa.

Nenhuma pressa.