como Dick & Anna

Tec, tetec, tec. Tec. Tec. Tetec. Tec.

Ela digitando.

Humpf…

Eu, deitado na cama, olhando para o teto enquanto espero, pacientemente, a hora em que ela vai enfim sair do computador e ir para seu banho.

Nem ligo. Quase quatro meses. Já até acostumei.

– Bonita essa música!

– Ah! É “Amie”, do Damien Rice. Bonita mesmo, né?

Ok! Damien… Rice. Damião Arroz! Simone… novela das oito… Ana Carolina… Seu Jorge… ok! Até que eu gosto dele, tenho um ao vivo lá em casa, perdido entre as dezenas de cds de mp3, devo ter ouvido umas 3 vezes, mas… me diz… como não se irritar com – não-posso-paraaaaar-de-te-olhaaaaar – versões-lixo-em-português (duas de uma só vez, tocando em uma mesma época, meses seguidos, sendo uma com a… Simone – “então é nataaaal” – e outra com a Ana Carolina, em companhia do… Seu Jorge, o homem que regravou Rebel Rebel com o título de Zero-a-zero!)? Como evitar que a irritação vire repulsa e acabe sobrando para o compositor da pobre e vitimada canção original?

E é por isso que não ouço Damien Rice há um ano ou mais do que isso.

– É sim.

– Você gosta de Damien, amor?

Ô

Qual é?! Eu não menti, menti? Eu gosto, ué! Só não ouço há um ano ou mais e a simples possibilidade de ouvir o… hmmm… verso “é isso aí” após a introdução de The Blower’s Daughter me dá calafrios. Mas eu gosto. É sério.

– Essa daí eu conheço! Belle & Sebastian! Não sabia que você gostava deles!

– Hein? Mas… isso é Damien!

– Não, não. É Belle! Eu conheço essa música. Não lembro o nome. – e é aí que eu percebo que – caramba! – há bastante tempo que não ouço nada desse grupo! E nem sequer tenho a desculpa das versões-lixo-em-português.

– Minha prima baixou como se fosse Damien.

– Mas é Belle.

– Será?

Será não. É. É I Fought In A War, primeira faixa daquele disco de 2000 que tem um nome grande pra cacete. E ela gosta da música e me pede para gravar um CD com Belle & Sebastian e outras coisas que “você sabe que eu iria gostar de ouvir”.

Um CD. Apenas um CD. Não em áudio. Em mp3. Mesmo assim… um infinito de nomes me passam pela cabeça. Um CD. Apenas UM. Muito pouco!

Rob Fleming me ajude.

Perdoem, mas… fu-deu!

***********

Violão, voz e uma dose forte de tristeza. Lá vai a coletânea do Nick Drake. E também o ao vivo piratão do Damien Rice, e com ele, a cover que o cara fez de Creep. E eu sei que ela gosta de Radiohead, então, vai também a gravação que o Jamie Cullum fez de High and Dry, o que me faz lembrar que o Cullum também gravou Lover, You Should Have Come Over, do Jeff Buckley, e como sou um dos que acredita que Grace foi um dos melhores – se não o melhor – álbuns da década de 1990, o coloco entre os outros discos. E já que o CD já está cheio de versões, Katie Melua vem com Lilac Wine e Just Like Heaven, essa última, cover para The Cure, trilha de “E se fosse verdade” (ela gosta de comédias românticas, e foi ótimo assistirmos esse filme juntos).

Do Snow Patrol, Chasing Cars (de certa forma, “nossa música”), e Run, e Chocolate. E claro, não posso esquecer de algo de Belle & Sebastian.

Mas… cadê o próprio Radiohead (que sacrilégio! Ela não tem o The Bend’s!)?! Cadê essa turma contemporânea – ou nem tanto – de emuladores de Nick Drake, como Iron & Wine e Mojave 3? Cadê o Bright Eyes? A Cat Power? Cadê o outro Damien, o Damien Jurado, que eu, perdido no espaço e no tempo (a despeito do cara estar gravando desde 1997), só vim conhecer há algumas semanas? Cadê os solos da Isobel Campbell, algo do Kent, o novo do Gram, Rilo Kiley, The Dears e tantos mais? Cadê?!

Resisto à tentação de jogar tudo fora e bolar um novo CD, e entrego assim mesmo, com a resalva de que deixei de fora muitas coisas que gostaria de lhe apresentar.

Faço questão de frisar que, por mais que pareça, não quero ser como o Dick, de Alta Fidelidade, assumindo com sua Anna um tom professoral do tipo “isso-você-deve-ouvir”, “isso-você-não pode-ouvir”, mas ela me tranqüiliza, diz que não estou sendo assim, e que gostou das coisas que gravei, e me pede para gravar outros CDs do tipo.

Ufa! Outros CDs. Outros, com destaque para a letra “s”.

Quanto aos gostos, temos nossas diferenças, mas também as similaridades. De certa forma, agora ela ouve Belle & Sebastian (e eu também voltei a ouví-los), e meu medo de Damien Rice passou sem grandes esforços.

Eu sei. Eu a soterraria de discos se não me controlasse. Mas temos tempo, muito tempo.

Um pouco de cada vez. Um disco por dia, talvez.

Não. Tô brincando. Um por semana. Algo por aí. Ou não.

Não temos pressa.

Nenhuma pressa.

8 Respostas to “como Dick & Anna”

  1. Lu!! Says:

    Bom, já te livrei do ” rótulo ” de Dick, rsss…. Eu realmente gosto das músicas , gostos dos textos e tudo mais que você me passa.
    Você sabe que o meu problema de ficar em frente a um computador, é a preguiça de ficar em pé falando mais alto, rss ( terrível ) mas… fazer o que é verdade.
    Ah! tbm concidero chasing cars como a ” nossa música ” tá certo que vc teve de me mostrar q ela era, já qua tapada aki não percebia, rsss

    Então é isso, podemos parecer como Dick e Anna, mas, há um difrencial. Você não me diz o q gostar ou não, só me mostra os caminhos…..rsssss

    Beijos, S2

  2. Nina Says:

    Eu axo que vc tá mais pra Rob! kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Mas é isso, entulha a menina mesmo! =) Vc de vez em qnd tem bom gosto… hahahaha To brincando, gosto das coisas q me apresenta tbm…
    Bjos!

  3. JW Says:

    é que eu acho que a Luana está mais para Anna do que para Laura… rs

  4. Nina Says:

    A Anna não está na minha memória!
    Só uma observação… Espero que o namoro de vcs dure o suficiente pra 100000000000 de discos… =]

  5. André Julião Says:

    C já leu o Lester Bangs?

  6. o outro Damião « “A Canção Pobre” Says:

    […] ps.: não resisti e acabei gravando algumas coisas do cara no último cd que preparei para a Lu (ler “como Dick & Anna“) e sim, ela gostou. […]

  7. O segundo de Damião Arroz « “A Canção Pobre” Says:

    […] Depois de um ano ou mais, minha namorada foi responsável por me fazer “voltar” a ouvir Damien Rice, deixando de lado o preconceito que cheguei a criar para com o cara por conta das versões-lixo-em-português – não-posso-paraaaaar-de-te-olhaaaaar – que vitimaram uma de suas canções. Já falei isso aqui. Pois, uma vez que já consigo ouvir um disco inteiro do Damien (quase) sem pensar na sacanagem que fizeram com ele ao colocarem aquelas… coisas tocando o tempo-todo-em-todo-lugar, posso considerar 9 Crimes como um dos singles mais bonitos do ano (aliás, coisa que não falta em 2006 é single interessante, ainda que em termos de álbuns de qualidade – quantidade temos de sobra -, poderíamos estar melhor). […]

  8. Renata Miloni Says:

    O Jamie Cullum regravou “Lover…”? Ficou um desastre? Mas não se deve regravar Jeff, Damien e Tim.

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