na veia

Cedo. Manhã de Segunda-feira, um dia de folga em comum para o Cabeludo, o Patife e para Quarenta e Sete.
Saindo da muvuca da Central do Brasil, tomando o rumo do Rio Comprido, onde Quarenta e Sete – ou a mulher-mais-cheirosa-do-mundo – pretende resolver problemas relativos a sua matrícula na universidade. Cabeludo está sentado sozinho, feito um pequeno garoto autista – mas um pequeno garoto autista com a cara de um Bin Laden sem barba – digitando pequenos projetos de poesia em seu aparelho de telefone celular. Patife e Quarenta e Sete conversam sobre banalidades e emitem pequenas risadas quase-que-secretas por conta de bobagens quase-que-secretas que ninguém, exceto os dois, seriam capazes de entender.

Distraia-se enquanto pode, Cabeludo!
Ria enquanto pode, Patife!

Nada proveitoso. É assim a ida dos três até a universidade. Nada além de um dá-uma-ligadinha-ou-então-uma-passadinha-aqui-na-semana-que-vem. Mas é assim mesmo… uma atenção de dar inveja…

Seguem então, a bordo de um outro ônibus, em direção ao Hospital Pedro Ernesto, em que Cabeludo e Patife pretendem doar sangue.
PRETENDEM.
O pai de um amigo, um senhor de talvez 60 anos, encontra-se com leucemia. A causa é nobre. Os dois, reles paspalhos.

Grandes homens são esses, que se cagam de medo de agulhas dentro de suas veias, sugando delas meros 450ml, não?

Identidade na mesa, formulário em mãos. E dá-lhe perguntas do tipo veio-em-jejum-tem-aids-sai-com-prostitutas-travecos-e-relativos-usa-injetáveis-tem-hepatite-quantas-parceiras-por-ano, etc, etc, etc. Nada suficiente para acrescentar uma certa dose de… tensão.
Cabeludo é o primeiro a ser chamado para o… início. Peso, altura, temperatura, furo-no-dedo-para-saber-seu-grupo-sanqüíneo e demais exames do tipo. E o Patife, na sala de espera, treme, aperta a mão de Quarenta e Sete.

COMO SE FOSSE ALGO DEMAIS!

Isso nada tem a ver com BONDADE. Tem mais é um certo estranho tom de egoísmo, algo como… “se um dia eu precisar, já sei a quem recorrer… ajudando agora para, se for o caso, ser ajudado depois”. Mas… não sei… talvez… é melhor do que nada, não?
**********

– Essa garota ali fora… é a sua namorada?
– Sim, sim.
– E ela não vai doar não?
– Não.
– Poxa! Mas… por quê?
– Porque… ela… pesa Quarenta e Sete.
– Ah! Quando você puder voltar novamente, daqui a três meses, traga ela. E durante esse tempo, tenta fazê-la engordar uns três quilinhos…
– Aham… – mamãe vai bem, doutora? – eu tentei convencê-la a tomar três litros d’água para aumentar o peso, mas não consegui.
– Hihihihi.
– He-He – ri sem graça e volta a cara ranzinza de sempre.

Cabeludo já está na sala de coleta. A enfermeira responsável amarra a maldita borrachinha em seu braço enquanto o Patife entra e – está BEM legível em seu rosto a palavra TENSÃO – vai se ajeitando na cadeira para esperar sua vez.
Quarenta e Sete – ou a mulher-mais-cheirosa-do-mundo – em pé, mais perto da porta, apenas ri, daquele jeito de riso contido do tipo sei-que-não-deveria-rir-mas-não-consigo-evitar.

O Patife aperta os olhos, morde os lábios, estica as pernas, aperta a coxa. E a enfermeira apenas começou a amarrar a maldita borrachinha (TENSÃO, meu caro! TENSÃO…).

Poutaquiupariu! Não tem uma agulha maior não? – o Cabeludo.
– Cala a boca aí, Animal! – o Patife.
– Cala a boca? É porque você ainda não viu o tamanho da criança! – o Cabeludo.
– Vocês são muito freeescos! – a enfermeira.
– He he he he he… – a mulher-mais-cheirosa-do-mundo.

Agulhas devidamente postas.

O Cabeludo

O Patife

“Vai abrindo e fechando a mão, por favor… daqui a pouco acaba…”
“Amanhã eu volto aqui!”
“Não é tão ruim assim.”
“O problema não é por a agulha… é TIRAR a agulha.”
“Isso é bem reconfortante!”
“To chapadinho!”
“Minha mão tá dormente!”
“Volto na véspera do natal porque com pouco sangue na veia vou precisar de pouca bebida pra ficar ruim.”
“Hehehe”
“He he he he he”
“Tem lanchinho, né, tia?”


**********

Para quem doa, é bem menos complicado do que se possa imaginar. Para quem precisa, é bem mais útil do que qualquer outro possa supor, e pouco importa se tem a ver com “bondade” ou com um certo estranho tom de egoísmo do tipo “se um dia eu precisar…” etc. A utilidade é a mesma no final, e bom seria se todos os que podem fazê-lo doassem nem que fosse apenas para ganhar um hemograma completo grátis.

Sobra para Quarenta e Sete a incumbência de guiar o pateta tonto de seu namorado e o melhor-amigo-pateta-tonto-de-seu-namorado até a estação mais próxima.

5 Respostas to “na veia”

  1. Jorge Wagner Says:

    agora aqui, um rápido apelo: se você é do Rio de Janeiro, doe sangue no Banco de Sangue do Betinho, no Hospital Pedro Ernestro (atrás da UERJ), de preferência em nome de Nilton Hipólito Pereira, o pai desse meu amigo.

  2. Quarenta e Sete Says:

    Ai que vergonha, por míseros 3kg e uma tatuagem ” recente ” não pude doar nem uma gota q fosse. Tirando esses fatos irrelevantes confesso que me diverti demais, vendo 2 marmanjos com medo de ter sei lá o q quando vissem a bendita agulha. Durante o caminho estavam brincando, com caras ótimas, mas… assim que entraram na recepção e começaram a fazer o questionário a expressão ia mudando, os olhos aumentando. Depois que começaram a doar viram que não havia nada demais.
    Me restou o papel de fotógrafa, rsss…..
    Tive de segurar o riso umas 2 vezes, mas, como vcs leram, foi impossível…

    Bem, agora fica a espectativa: será que consigo, um dia, chegar aos 50kg? Enquanto isso espero até o ano q vem pra quem sabe eu já não esteja no ” ponto ” para fazer uma doação…rss

  3. Edson Junior Lain Says:

    Heehh.

  4. Carina Says:

    Sua namorada gosta de dar uma de mais gordinha pra cima de mim mas eu peso mais que ela tá… kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Não sei se tenho coragem de doar sangue. Qse não tenho pra tirar 1 gotinha de mim… tirar um bucado deve ser horrivel psicológicamente. Mas é um ato mto bonito, se num formos pensar no lado egoísta!! Mto bonito!

    Bjos!!

  5. Leo Says:

    seus comédias!!
    ri muito!
    e ainda por cima são 2 cagões… morrendo de medo
    eu doo sangue sempre aqui no hemocentro. viu como sou um hominho corajoso… vou deixar a mamãe orgulhosa!
    mas idéia de doar sangue na vespera de natal é boa hein…

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