Eu e o mundo

Texto sem revisão e inacabado. E sem previsão de quando vou acabar.
***

I

De segunda à sexta. Da faculdade ao trabalho, do trabalho para casa. Para o apartamento. Para o nosso apartamento. O meu apartamento. Na verdade, isso nunca fez muita diferença. Entre o bom dia apressado de segunda-feira e o sexo de quase despedida do começo da manhã de sexta, até que a gente se divertia.
 O meio da semana, passávamos juntos. Sempre. Os finais não. Nunca. Ainda na noite de sexta você esquecia a faculdade e voltava pra sua cidade natal, pra sua vida normal, voltava para o namorado idiota (e corno, diga-se de passagem), enquanto eu… esperava a manhã de sábado para aparecer na casa dos meus pais, levar a roupa pra lavar, brincar um pouco com o cachorro, assistir desenho animado com meu sobrinho de quatro anos, comer, dormir e, de vez em quando, correr atrás de alguma garota no final da noite.

É estranho entrar nesse quarto agora e não sentir o perfume da sua loção. Ou então chegar do trabalho e não sentir o cheiro do baseado que você sempre fumava às escondidas e depois acreditava disfarçar com alguns poucos segundos de incenso aceso. Nossas ondas sempre foram diferentes, mas… você sabe: sempre achei que você ficava demasiadamente sexy com os olhos pequenos e o sorriso relaxado. E – acho que você sabe disso também – mesmo não gostando da banda, mesmo tendo debochado de você algumas vezes, adorava lhe ver vestida com aquela imensa camisa do Nirvana, capa do Bleach, que engolia seu tronco mas cobria só um palmo das suas coxas. Gosto de lembrar de você, vestida com essa blusa, se revirando entre os lençóis e me perguntando as horas.

Corrija-me se estiver errado, mas acho que sempre conversamos muito sobre o que gostávamos e o que não gostávamos. De filmes à bandas, de comidas à posições, de cidades à pessoas. Dos outros à nós mesmos. E acho que foi numa dessas que você se queixou de eu jamais ter dito que te amava. Fiquei sem resposta, eu acho. Saí pra uma cerva. Mas… caralho! Se eu não havia dito, era porque não amava, porra! Pra que mexer nisso?! Eu gostava de você, não gostava?! Não demonstrava gostar?! Até onde eu via, estava de bom tamanho assim. Ainda bem que ficou só nisso…

Um plano mesmo, isso nós nunca tivemos. Tínhamos, mais ou menos, uma idéia de como as coisas poderiam vir a ser depois que você se formasse: com o diploma, você arrumaria um emprego melhor, nós arrumaríamos um apartamento melhor e assim os nossos meios de semana seriam sempre os melhores possíveis. Seriam melhores até do que nossos finais de semana no distante mundo real.
 Há menos de um ano você se formou e, é claro, eu não fui na formatura. Sua família inteira foi, seu namorado foi, seus velhos amigos foram, mas eu não (tudo bem: eu vi as fotos, assisti o dvd, você estava linda – apesar de séria demais e um pouco que visivelmente desconfortável com o salto que sempre afirmou odiar – e tudo mais). Em dois meses, arrumou o tal emprego melhor. Em algumas semanas, conseguiu transferência, lá pra perto da sua cidadezinha. E, claro, foi embora.
 Porra! É óbvio que eu nunca pensei que seria eterno, mas essa coisa de “eu te via demais” e “enjoei de te ver todos os dias, sabe?”, isso não cai bem! Ainda mais quando, depois disso, você simplesmente some (eu não iria mesmo ligar pra sua casa na roça) e, depois de mais um tempo, vai morar com o tal cara. Não é ciúme nem nada assim, mas… poxa, pensa comigo: você tá morando com um cara (e é algo sério e tal…), meus melhores amigos já tem filhos (um dos amigos dos tempos do colégio tem dois, aliás!), um colega só um ano mais velho que eu dá aula de história e é vice-diretor de uma escola… um monte de coisa assim. Enquanto eu… sou só um cara com um emprego razoável que passa os horários de folga assistindo desenho animado com o sobrinho ou brincando com o cachorro! Sei lá, bate aquela sensação de que fiquei parado, sabe?

E eu só tenho 23! Não me venha falar em crise dos 30!

II

Bateu a insônia. Aquela séria, que eu sempre lhe dizia ter tido alguma vezes, lembra? Passei duas semanas seguidas dormindo, no máximo, umas duas horinhas, entre socos no travesseiro e mudanças de posição na cama. As olheiras já estavam no queixo quando resolvi procurar ajuda médica. Não queria nada demais. Só uns ansiolíticos. Um simples “Insônia?! Tome esse remédio três vezes ao dia” já estaria de bom tamanho. Ao invés disso, a “doutora”, depois de ouvir minhas reclamações (sobre como eu não durmo mais, sobre como minha quase esposa me deixou para morar com o namorado corno, sobre como eu me sinto estranho e infantil ao ver que todos os meus amigos, de alguma forma, são tão sérios e adultos) me pede pra ficar em pé, dar uma voltinha (exatamente com as palavras “dá uma voltinha, por favor”) e diz até que eu sou “jeitozinho”, e que “deveria tomar vergonha na cara, praticar um esporte, entrar numa academia” porque, segundo ela, “você até que dá um caldo”.

Sabe que a idéia da academia até que não é tão ruim assim? De repente faz bem pra auto-estima. E um pouco de atividade física, algo saudável… não deve fazer mal.

Em todo caso, vale a pena ligar para aquela amiga que me conseguiu os ansiolíticos das outras vezes.
***

Uma resposta to “Eu e o mundo”

  1. Carina Says:

    Gostei do texto!
    Comentários ctg…

    bjoss

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