Ponha essa venda nos meus olhos.

Texto escrito (ou pelo menos postado) em 24 de abril de 2005.
Para entender, leia o post anterior.

***

Certas coisas deveriam simplesmente não acontecer. Como quando aquela vez em que você apareceu no tal ensaio, de uma banda que nem sequer chegou a acontecer. Lembro de como você estava sem graça, ali, sentada, olhando para cada um de nós, talvez prestando atenção na crueza do som, ou no prazer que aquilo, apesar de tosco, nos proporcionava.
Você deixava escapar sorrisos, que eu praticamente ignorava, quando um de nós fazia alguma piada.
O baterista olhava. O guitarrista olhava. Mas você era a garota do baixista.
Certas histórias deveriam ser rasgadas antes que pudessem se tornar realidade. Como quando fomos todos nós (eu, dois amigos, umas novas amigas – entre elas, você), no medíocre cinema local.
Algumas verdades não deveriam ser reveladas. Como quando você me contou de tudo que havia sentido um dia.
Há pessoas que deveriam saber esquecer, desistir, abrir mão, mas no tempo certo. Diferente de tudo o que eu fiz, que insisti, que cavei, que quis trazer a tona algo que já havia apodrecido dentro de você.
Há frases que não devem ser ditas, possibilidades que não devem ser cogitadas, oportunidades que devem ser esquecidas.

Nunca fui forte.

Deveria haver alguma forma de desfazer coisas das quais os efeitos foram os piores possíveis.
Eu passo os dias tentando aceitar, e as noites tentando lhe convencer, e aos meus amigos (os poucos que sabem de tudo, ou quase tudo), e mesmo a mim, que estou errado, que nunca existiu nada, que nunca valeu a pena, que se aconteceu, agora é apenas passado, e que meu coração está vazio, como naquele dia de chuva, em que conversamos bobagens, sem que certas cortinas houvessem sido abertas.
Mas não está.
Meus sorrisos nunca foram tão plásticos. E você… talvez não desconfie disso.

Não é fácil simplesmente apagar da mente todos os dias, todas as palavras, cada olhar, cada movimentar de lábios, cada abraço. Eu gostaria de aprender com você, que, pelo jeito, conseguiu facilmente desempenhar sua missão.

Eu vou fingir, festejar, sorrir. Vou celebrar tudo o que eu não sou, tudo o que nunca fui, e tudo o que não tenho certeza se chegarei a ser um dia. Tudo o que eu não digo, em cada entrelinha, não só do que eu escrevo, mas do que vivo, do que falo, mesmo quando os assuntos são outros.

Sobre certas histórias, não consigo simplesmente contá-las, com começo, meio e fim. Talvez por não existido cada um dos três estágios de forma definida. Por isso sempre complico um pouco mais.

Mas hoje não tem festa, não tem amigos e nem analgésicos. E é por isso que talvez, só por hoje, eu não esqueça de coisas que nunca deveriam ter acontecido.

4 Respostas to “Ponha essa venda nos meus olhos.”

  1. Carina Says:

    Sem coments pra esse, bom demais! =D

  2. Sertório Says:

    Muito bom cara , é quase um soco na testa o “nunca fui forte.” incrível !

  3. Jorge Wagner Says:

    são só palavras, e palavras nem sempre são válidas.
    hoje?
    hoje eu não vou mais fingir, festejar, sorrir…
    as festas acabaram, as luzes se apagaram e os figurantes foram embora.
    agora sou eu, sozinho no salão vazio.

  4. Wagrod Says:

    nao acompanhava nenhum blog,
    taí , vou acompanhar o seu
    valeu..

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