“Um Táxi Com O Marillion”, por Carlos Eduardo Lima

Exceção por esses lados. Acho que é a primeira vez que reproduzo assim, na íntegra, o texto de outra pessoa. Trata-se de Um Taxi Com O Marillion do CEL, que recentemente participou do projeto Mojo Books, escrevendo sua versão literária de Comes A Time, do Neil Young.

Quatro razões para gostar desse texto: a) Marillion é, por mais que eu fique muito tempo sem ouvir, uma banda do coração; b) a forma como o CEL escreve, pontua etc é o tipo de escrita que me agrada e de certa forma até inspira (muito do que ele diz ao longo do texto poderia vir a ser dito por mim daqui algum tempo, sem falar em coisas que eu talvez já tenha dito, com outras palavras); c) gente que entende de música como ele, o Mac, o Inagaki e outros são sempre dignas da minha admiração; d) to catando quase tudo do cara no slsk agora.

Com vocês, o texto:

 

Um Táxi Com O Marillion

Você lembra de 1985? Eu lembro. Há vinte anos que procuro por alguma coisa que ficou perdida naquele ano estranho. Sabe como é, algumas desilusões, algumas frustrações, algumas empreitadas bem sucedidas, uns poucos arrependimentos, afinal de contas, ter quinze anos em 1985 ainda era algo light e que exigia pouca responsabilidade para com os outros e o mundo. De qualquer forma, por uma maneira um tanto óbvia, me lembro de 1985 em forma de música. Só que, como já disse em outras Blips do passado, a música tem uma característica estranha de se travestir de acordo com o grau de afeto que sua memória lhe confere.

Explicando: se você viveu um momento bom e ele, por algum motivo, foi sonorizado por uma música ruim, um abraço para você, sua trilha sonora vai obrigatoriamente passar por aí em recordações futuras. A minha trilha sonora internacional de 1985 gira em torno de quatro discos. The Head On The Door, do Cure; The Dream Of The Blue Turtles, do Sting; Songs From The Big Chair, do Tears For Fears e Misplaced Childhood, do Marillion. Sei que poderia ser muito melhor. E também pior. Para minha felicidade, Dire Straits não grudou na minha cabeça nessa época. Mas não posso exatamente contar vantagem do que me lembra esse ano tão querido.

O grande lance nisso tudo é que eu não tinha o Misplaced Childhood do Marillion há até poucos dias. E comprei hoje. Explico: em 1985 eu tinha o vinil. No advento do CD, a obra dos progressivos ingleses foi adquirida prontamente. Nas idas e vindas da existência, o disquinho veio e foi. E, para minha surpresa, ele foi e não voltou. Erro corrigido hoje. Com classe. Me dei ao trabalho e ao gasto de comprar uma versão dupla, com o disco propriamente dito e uma série de outtakes e lados B. A glória maior que eu poderia querer.

Eu precisava ouvir aquilo de qualquer jeito. Das músicas em suíte, que formavam o antigo lado A do vinil, eu ainda sei a letra de cor. São mais de trinta minutos ininterruptos de verborragia simbolista, parida pelo então vocalista Fish, sobre juventude perdida na Inglaterra oitentista. Dane-se, eu amo. A caminho do trabalho, atrasado, tive que lançar mão de um táxi e, surpreso com minha própria cara-de-pau, perguntei ao senhor que dirigia o Santana se ele poderia dar a licença de ouvir o disco. O senhor ouvia tango, Por Uma Cabeza, conhecido por muitos como o tango que toca em Perfume de Mulher, no qual Al Pacino dança com Gabrielle Anwar. Enfim, o tango, que é lindo, foi sacado do CD player e deu lugar à versão alternativa de Heart Of Lothian. E eu cantei a letra toda, com vontade, imitando o sotaque escocês de Fish.

Vibrei nos maravilhosos e um tanto flácidos versos “It’s six o’clock in the tower blocks, stalagmites of culture shock, and the trippers of the light fantastic boedow, hoedow, spray the pheremones on this perfume uniform”. Ou “The anarchy smiles in the royal mile” ou ainda “Rooting tooting cowboys with lucky little ladies on the watering holes, they’ll score the friday night goals”. Nossa, isso tudo é muito legal. Cantando loucamente no táxi atingi o bairro da Tijuca, local de trabalho. Agradeci imensamente ao motorista e percebi que saltei do táxi com quinze anos de idade. Quase parecia que era do velho Integração Metrô-Ônibus que eu saltava, rumo ao velho Colégio Santo Agostinho.

Sobre o disco do Marillion, recorro à velha verdade de que não adianta entender baldes de música, basta sentir alguma coisa boa para a música ser boa. Com quinze anos a gente entende melhor essa máxima do que com 34. Ou mais. Talvez seja um caso de inversão proporcional do gosto, vá lá saber. E, só pra constar, esse é o disco que tem o maior hit da carreira da banda, Kayleigh. Só soube que era um nome de mulher recentemente. Talvez com quinze anos eu intuísse essa verdade.

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Uma resposta to ““Um Táxi Com O Marillion”, por Carlos Eduardo Lima”

  1. CEL Says:

    Cara, muito obrigado pela homenagem. Esse texto fala por todos nós.
    Abraços!

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