Archive for fevereiro \27\UTC 2007

Vapor e fumaça

fevereiro 27, 2007

– Não quer esperar eu passar um café?
Hmm… proposta tentadora, mas acho melhor não. Já vai amanhecer…
– E qual o problema?

Ela me olha com cara de “você sabe” enquanto ajeita no belo e pequeno magro corpo a camisa amarela de malha vagabunda.
Sai do quarto prendendo os cabelos enquanto eu ainda me esparramo pela cama.

– Ei, onde eu acendo a luz do banheiro?

Não tem jeito. Tenho mesmo que levantar. E até que sou rápido nisso, mas sempre me enrolo na hora de achar meus chinelos.

– Pronto!
Brigadinha! – diz enquanto abre um sutil sorriso amarelo. E se o cheiro combinado de cerveja + cigarro não é o melhor possível, tudo bem. Em horas como essa não chega a incomodar.

Ela volta ao quarto, eu lavo meu rosto. E de uma vez por todas, eu preciso me barbear! Isso coça, esquenta, incomoda, mas sempre em que penso em tirá-la, alguém como ela vem dizer que “essa barba lhe caiu muito bem, viu?”. Assim eu deixo pra lá, sabe como é…

– Cadê meu cigarro? Você viu?
– Não vi não! Você trouxe pra cá?
Filho da puta!
– Que foi?
– Ah! Dane-se! Compro outro ali fora.
– Eu, ein…

Enquanto me espreguiço em pé, ao lado da cama, ela abre meu armário e se olha no espelho. Retoca o batom, confere os cabelos. Vira de costas, olha pra trás, ajeita sua jeans.

Vou à cozinha e preparo a cafeteira.

– Não quer mesmo esperar um gole?
– Gostaria, mas estou sem tempo.
– Tudo bem.
– Então… já vou indo.
– Ok. Eu… te ligo?
Hmm… talvez. – e vai em direção a sala.
– Deixa a porta aberta, por favor.
– Oi? Por que?
– Já vou aí. Quero te ver descendo o corredor.
– Mas… nos vimos a noite toda!
– Vimos? Bem… pra mim… aquilo tinha outro nome.
Bobo! – diz enquanto ri.

E quando some de minha vista, me sirvo uma boa xícara de café. Caminho lentamente até a sala e me apoio no portal. Saco do bolso o isqueiro e o amassado maço que escondi da pequena em meio a noite anterior, acendo meu primeiro cigarro nos últimos três anos e a observo, meio apressada, descendo as escadas do prédio.

No silêncio do dia que amanhece, entre o vapor do café e a fumaça do cigarro, quase vejo o velho Dylan vindo pra me dar razão.
Talvez seja verdade. Os ventos da mudança estão soprando novamente.

Sobre como as pessoas mudam (mas não deixam de ser quem sempre foram)

fevereiro 26, 2007

– Não tenho mais porquê ser a mesma pessoa, saca?
– Claro que não tem! O tempo passou!
– E eu tenho que pensar nas crianças, cara! Não tem como eu querer ser a mesma pessoa que eu era quando tinha 14, 15 anos.
– Que bom ouvir você falando assim.
– Eu fiz muita merda. Muita mesmo, e você sabe. Mas tenho que pensar nos meus filhos. Não é porque to por minha conta outra vez que vou voltar a fazer o que fazia antes.
– Olha, sinceramente, eu fico muito feliz em ouvir você falar essas coisas. A gente ficou muito tempo sem conversar, não dava pra ter noção de que você havia realmente amadurecido assim.
– Vinte anos e mãe de dois filhos, rapaz! Não dá pra brincar.
– Lembra daquele churrasco no seu aniversário de… de quantos anos?
– De 12! Claro que lembro! Tem foto de vocês aqui! Tá em algum lugar do quarto da minha mãe.
– E agora você com esse papo de mãe, toda consciente!
– Pra você ver.
– Quanto tempo a gente não parava pra conversar direito mesmo, ein?
– Ah… há quase cinco anos!
– Tudo isso?
– Por aí.
– Nossa, a gente precisa mesmo colocar a conversa em dia!
– Ué, a Ana tá me chamando pra assistir Mr. Catra no sábado. Vamos?
– Hahahah, Catra?! Eu?
– E você acha que eu gosto?
– Então vamos!
– Pega mais um pedaço dessa lasanha então!
– Dá mais aí!

Um dia entre muitos

fevereiro 24, 2007

Descem na estação final, Central do Brasil. Antes de seguirem, param, pedem um “açaí completo” para os dois. Ou seria um para cada? Isso não importa. Acordaram cedo, precisam se alimentar.
Pela estreita calçada, quase toda impregnada pelo mal cheiro de foligem, poeira e urina, voltam pela Presidente Vargas em direção à Praça XI. Mãos dadas, claro. E os dois concordam que o Rio do samba, suor e calor fica muito mais bonito em dias de frio, com nuvens no céu.
Concordam e sorriem.
Chegam ao destino: um grande prédio quase em frente ao edifício dos Correios. Ele precisa ir embora, ela precisa subir. Mas chegaram cedo, podem esperar. E ali embaixo, abraços, beijos no rosto, sorrisos.

– A gente é muito grude, né?
Ela entende exatamente o que ele quer dizer.
– Somos, mas nem ligo! – e abre um belo e sincero sorriso.
– Todos diziam que iríamos mudar…
– Ainda bem que não mudamos. Eu gosto de como estamos.
– Eu também. Mas as vezes tenho medo de ser “doce” demais, grude demais.
– Eu nem ligo. Eu gosto, é sério.
– Se você diz…
– Não quero que a gente mude.
– Nem eu. Nem eu…

E quietos, abraçados – ela à frente dele, rostos próximos, quase colados –, observam os carros apressados, os ponteiros dos relógios, as pessoas sem brilho. Mas ele precisa ir embora, ela precisa subir.

– Acho que já vou.
– É, também está na minha hora.
– Boa prova, amor.
– Boa aula, amor.
– Liga pra avisar como foi?
Hmm… só estou sem crédito pra ligar, mas posso mandar mensagem.
– Então tá.
– Boa sorte, bom dia, adoro você.
– Boa aula, bom dia, também adoro você.

Ele atravessa a rua e segue para o ponto de ônibus. E mesmo sabendo que não há nada de tão difícil assim, quase cruza os dedos. Mas não acredita nisso, deixa pra lá. Olha para trás, ela ajeita o cabelo, abre um sorriso, acena, vira e entra no prédio.
Em poucas horas, ela passa na prova. Assim, em algum tempo, pode começar a faculdade. Para ela, parece algo comum, não tão importante assim. Já para ele… ele é só orgulho.

Mas isso tudo foi há muito tempo atrás.

David Usher

fevereiro 17, 2007

David Usher nasceu em Oxford, na Inglaterra, em 24 de abril do ano que os Beatles lançaram Revolver. Filho de mãe budista e pai judeu, estudou Ciência Política no começo dos anos 90 na Simon Fraser University, em Vancouver, pouco antes de ingressar profissionalmente no mundo da música à frente dos vocais do Moist.
Com a banda, lançou os discos Silver (1994) e Creature (1996) antes de se lançar em carreira solo, em 1998, com Little Songs. Quatro anos depois de Creature, em 2000, saia mais um disco do Moist, Mercedes Five and Dime.
Em carreira solo, Usher lançou ainda Morning Orbit (2001), Hallucinations (2003) e If God Had Curves (2005), além de ganhar 5 Junos (o Grammy canadense), incluindo a categoria Melhor Álbum Pop de 2002.
Dono de uma voz das mais agradáveis, autor de belas canções – que passam pelas letras e chegam aos arranjos, Alternative Pop de extrema qualidade, com o lado “orgânico” da banda fluindo bem através de muitos violões, outras cordas aqui, sopros ali etc, e ainda fazendo bom uso de recursos eletrônicos – David Usher é protagonista de um daqueles casos clássicos em que não conseguimos entender a razão pela qual tão pouca gente conhece seu trabalho por esses lados do Atlântico (experimente procurar por um ÚNICO texto em português sobre o sujeito!).
Assim como no caso dos suécos do Eskobar e do Kent, nossos ouvidos são os maiores perdedores.

***

Assista o clipe de Surfacing, um dos singles de Hallucinations:

Ouça aqui a versão de Usher para If You Tolerate this Your Children Will be Next, da não menos ótima (e também não tão conhecida quanto merecia) Manic Street Preachers, e aqui, Love Will Save The Day, single de If God Had Curves.

Se você baixa arquivos via torrent, pode aproveitar e pegar a discografia do sujeito aqui. Tem todos, exceto Strange Birds, que sai em março desse ano, como consta no site oficial do David.

mais arquivo

fevereiro 14, 2007

Enquanto não consigo escrever nada de novo, de novembro de 2005. Acho que ele não chegou a ter um título propriamente dito, mas eu o chamava de “tudo está certo num quadro tão torto” (sim, aquele trechinho de uma letra do Violins, pra variar…).
***

Quando a estrada apontar aquela curva, quando o carro cruzar aquela ponte, engula suas lágrimas, recomece sua vida.
Quando eu abrir os álbuns, verei apenas os sorrisos, sem me prender aos seus olhos. Aliás, sem me prender ao meu rosto, tão diferente, e a cada dia mais…
Quando o carro cruzar as montanhas, aperte com força o volante, respire fundo, olhe tudo à sua volta. este é um novo dia, um novo despertar, uma nova vida… pra você.

Menos garfos nas gavetas, menos pratos sobre a mesa, e tudo bem, se por enquanto, alguns telefonemas além do normal.

Os novos amigos são os velhos amigos, ao menos para mim.

Ainda é a mesma garrafa… mas o café já não tem o mesmo gosto;
Ainda são as mesmas roupas, mas já não brilham quanto antes;
Ainda é a mesma tevê, mas, graças, as pilhas do controle acabaram.

Eu não prometi quadros sem falhas, paredes sem rachaduras, e você nunca me cobrou. Inocente fui, ao acreditar que estava tudo bem, tudo perfeito…Você buscava tintas fortes, você buscava placas de concreto…
Você esperava pelo que eu nunca seria capaz de lhe entregar.

Seu beijo teve gosto de nunca mais.
A partida do seu carro teve som de “eu sobrevivo”.
E minha não lágrima me trouxe o calor que sente o quarto colocado de uma corrida qualquer.

A casa está maior agora;
O lençol agora é só meu.

E eu não sinto sua falta, eu sinto seu perfume.

Estrelas Encobertas

fevereiro 10, 2007

Há uma máxima que diz que todo jornalista musical é um músico frustrado. Se isso é verdade ou não, ao pé da letra, eu não sei. Mas não sou eu quem vou provar o contrário.
Talvez nem todos vocês saibam, mas sou meio que um músico frustrado. Talvez não tão frustrado assim, porque nunca “investi” numa carreira ou coisas do tipo. Já compus algumas coisas, fiz umas 3 gravações mais “sérias”, uma meia dúzia de gravações caseiras (que, pra falar a verdade, são mais legais que as tais “gravações sérias”, mas que nem por isso eu vou mostrar! rs), mas nunca cheguei a acreditar que poderia ganhar algum dinheiro com isso. É um hobby do qual me esqueço durante boa parte do ano, e que só me lembro quando, por exemplo, estou andando pela rua e encontro um amigo (ou uma roda deles) com um violão.

Um dia desses, num desses encontros ao acaso, me fizeram lembrar de uma letra que, modéstia a parte, gosto bastante (a música até que é legalzinha também, mas isso não vem ao caso agora). Se não me engano, foi feita em maio de 2005. A idéia de escrever a coisa mais otimista que o cara mais pessimista do mundo poderia escrever (algo como “o mundo é uma droga, a vida é uma droga, então não pensemos nisso e pode até ser que um dia a gente dê a sorte de conseguir algo de bom!”), em parceria com meu amigo Átila de Carvalho, rendeu isso aqui:

ESTRELAS ENCOBERTAS (JW/Átila)

Tudo fica mais bonito quando fica na lembrança,
Coisas ganham brilho novo quando acaba a esperança
De onde vem essa tristeza?
Será coisa de criança?
Só você sabe, só você sabe com certeza

Quando as luzes apagarem nós veremos as estrelas
Quando você cansar de vê-las,
Talvez o dia amanheça,
Talvez o sol apareça

Se é pra ser fácil pra alguém,
Que seja assim pra você, e não pra mim
Se é pra ser fácil pra alguém,
Que seja assim pra você, e não pra mim
Seja fácil, você sempre foi assim.

Os caminhos que cruzam a estrada têm mais flores
E pedras, buracos, espinhos, cansaço
Não há beleza infinita
Que sustente os derrotados,
Nada é bom o bastante para nos manter sorrindo

E mesmo que hajam nuvens encobrindo as estrelas
Quando você cansar de vê-las,
Talvez o dia amanheça,
Talvez o sol apareça…
Mas só talvez.

Se é pra ser fácil pra alguém,
Seja assim pra você, e não pra mim.
Se é pra ser fácil pra alguém,
Seja assim pra você, e não pra mim.
Nada é fácil. Eu não sei mentir assim.
***

Talvez eu tenha me transformado nesse personagem. Essas linhas dizem muito sobre como tenho pensado ultimamente.
sorria, JW! eu disse pra sorrir... ah! deixa, vai assim mesmo!
***

Ainda estou devendo um retorno decente do blog, mas ainda não consegui. Em todo caso, recebi uns 3 recados pelo orkut de pessoas que nunca vi na vida que diziam ler o blog, apesar de não comentarem. Por causa de vocês, vou tentar tomar vergonha na cara! rs

Mas saibam que quando não tiver nada de novo aqui no blog, com certeza terá aqui, nas notinhas diárias que tenho feito para o site da Rock Press.