Impressões de Itatiaia

 Ainda sobre o último fim de semana, segue abaixo uma versão bem mais pessoal, feita pro blog mesmo,do que o texto que vai sair na revista. Gostem ou não, aí está…
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Sexta-feira, 25 de maio de 2007. Dia seguinte à noite apontada pelos meteorologistas como a mais fria do ano até então, e lá vamos nós em direção à Itatiaia, atendendo ao convite dos hotéis do Parque Nacional para conhecer a programação do Festival de Inverno da região.

(OK! Talvez você precise saber a quem diabos me refiro quando falo em “nós”. Duas mulheres, repórter e repórter fotográfica do Jornal do Brasil, e eu, formando em jornalismo realizando seu primeiro frila na editoria de turismo para a… Revista do Turismo)

A imensa dificuldade que é deixar a capital carioca após às 5 da tarde de uma sexta-feira atrasa a viagem em mais de duas horas, e eu, que esperava nosso transporte na parada de Belvedere, próximo ao pedágio da Dutra, na altura de Seropédica, por volta das 6h15 da tarde, acabo sendo pego apenas às 8h40 da noite. Apesar da maior parte do percurso transcorrer sem qualquer problema, nossa chegada ao quilometro 317 da rodovia Presidente Dutra, que deveria acontecer no horário em que eu entrava no carro, se dá somente às 10 da noite.
Já dentro do Parque, somos recepcionados no Hotel Cabanas, onde já se encontram outros membros da imprensa. Feita algumas apresentações – para as quais admito não me importar no momento –, um pouco de comida e algumas taças de vinho branco (tomadas em rápidos e grandes goles) aquecem o corpo, alegram o espírito.
Somos convidados para assistir ao vídeo “Itatiaia Visto Por Dentro”, feito por Christian Spencer, artista plástico australiano residente no Parque há seis anos, dono de um português tão inteligível quanto só um australiano residente no Brasil há seis anos poderia ter. O vídeo, diz Christian, tem como intuito mostrar que o Parque Nacional não é feito apenas de cachoeiras, como parecem pensar alguns turistas que visitam o local. E os bons minutos em que somos apresentados às muitas árvores, flores, anfíbios, insetos, aves, felinos e primatas não deixam dúvida quanto a veracidade da afirmação de Chris.

Separados em grupos menores, descobrimos onde ficaremos hospedados. Eu e mais um um jornalista de São Paulo estranhamente parecido com um velho amigo drunk somos enviados para o Hotel Donati, mas não sem certa dose de adrenalina. Dora, nossa simpática anfitriã, dirige entre sacolejos e solavancos, sem parecer se importar com seu carro. Quando questionada sobre os perigos da estrada, responde: “Aqui é tranqüilo por causa das pedras. Teria problema se fosse chão, fizesse lama”. E dá-lhe fundo do carro raspando nas pedras tão queridas por Dorinha.

“Tem cachaça aí?”, me pergunta o paulista, já no hotel. O que o faz parecer ainda mais com meu velho amigo drunk.

Fundado em 1931 pelo alemão Robert Donati, o originalmente chamado Hotel Repouso do Itatiaia é o mais antigo da região. Como Robert havia perdido toda sua família durante a 1ª Guerra Mundial, nos conta a proprietária durante o café da manhã do dia seguinte, o hotel foi dado por herança ao compadre, Mamedes Vidal de Andrade, pai de Dora. Pianista, Donati sempre manteve boas relações com artistas – como o poeta Vinícius de Morais e o pintor Guinhard, autor de diversas obras espalhadas pelo local –, que se hospedavam freqüentemente no hotel. Além dos quadros de Guinhard, fotos de Marcos Sá Correia decoram cada espaço do Donati, desde a recepção, até cada um dos chalés.
Após o café, nos encontramos novamente com o resto do grupo e vamos em direção à cachoeira Véu de Noiva. A trilha, simples e não muito cansativa, atrai todo tipo de visitante – famílias, motociclistas (de passagem por Itatiaia por ocasião de um encontro na cidade de Penedo), grupos de estudantes e, irresponsabilidade a parte, até uma mãe com bebê no colo, por exemplo –, todos interessados em admirar a bela queda de 30 metros de altura.

Não posso deixar de reparar o quanto, entre paulistas e fluminenses, somos um grupo estranho. Entre outros, estão juntos:

  • alguém que procura por pinga à 1 hora da manhã;
  • um extremamente mau humorado guia, morador da região, que reclama do governo até quando lhe perguntam as horas;
  • um bem humorado repórter de economia, que não nega ter ido ao local “apenas para curtir”, e que só reclama da ausência do que chama de “pererecas nervosas”, realmente em falta no local;
  • uma bela estagiária de um grande jornal que, por ter sido encarregada de fechar três páginas sobre essa viagem, fotografaria até vento e entrevistaria até um macaco, caso fosse possível;
  • repórter e repórter fotográfica que nos encontram depois de já termos concluído a primeira trilha, porque, no friozinho da montanha, resolveram dormir um pouco mais.

Voltamos parte da trilha e tomamos o caminho em direção à cachoeira do Itaporani. Apesar da distância ser maior do que a que percorremos para chegar até o Véu de Noiva, qualquer sacrifício parece valer a pena quando chegamos ao nosso destino. A vista é recompensadora: duas quedas com seis metros de altura cada resultam em um largo poço com sete metros de profundidade. A temperatura porém inibe até aos mais animadinhos, e ninguém se faz corajoso o suficiente para arriscar um mergulho.

Nossa volta para o almoço no Donati é interrompida quando um grupo de macacos-prego cruza a estrada. Nossa van, carros de passeios, motos… todos param para ver, tirar fotos, filmar. É o momento de glória dos primatas, que além dos 15 minutos de fama ganham a simpatia de todos, e muitas frutas dos mais empolgados – o que acaba gerando boas brigas entre os pequenos. “Pede sua banana aí que essa maçã aqui é minha, filho da Chita!”
foto por Reinaldo Meneguim
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Pausa para Bohemia, bolinho de milho, quentão, bolinho de aipim, mais Bohemia, mais bolinhos… tudo como um breve aperitivo para o delicioso almoço e para as deliciosas sobremesas da cozinha do Donati.
Jornalista come feito porco.

A programação da parte da tarde começa com uma ida ao Mirante Último Adeus, no sétimo quilometro da Estrada do Parque Nacional. Do mirante, localizado sobre uma pedra de 90 metros, temos uma vista ampla das matas que cercam o Rio Campo Belo, responsável por abastecer o município de Itatiaia. Sobre o nome do lugar, uns acreditam ser pelo fato de ali ser a última oportunidade de se ter aquela vista. Eu fico com a teoria do caiu-já-era.

Ainda deslumbrados com a beleza da paisagem do Último Adeus, somos levados ao Ateliê Vivart. Aberto aos finais de semana e feriados, é lá que o casal de artistas Dioclésio José e Mirian Leite expõem e negociam sua obras, entre fotografias, pinturas, mandalas, esculturas, camisetas, mantas e outras. No mesmo embalo, visitamos a casa de Christian, o australiano, que nos mostra algumas de suas (pra lá de psicodélicas) telas.

Após algumas horas de merecido descanso (leia-se “banho quente, assalto ao frigobar e cama”), seguimos para um jantar no Hotel do Ypê, o mais alto do Parque, à 1250 metros de altitude. Vinho. Queijos. Vinho. Vinho. Um músico acompanhado de bateria eletrônica e guitarra com um repertório que vai de Jovem Guarda à Ivete Sangalo (“se ele tocar Nelson Gonçalves, juro que vou lá e canto!”). Vinho (“cadê o frio?”). Risadas. Seu-sotaque-não-é-dos-piores, eu-nem-tenho-tanto-sotaque-assim. Jantar. “Coca-cola, por favor”. Motoristas-de-São-Paulo-são-loucos, adolescentes-cariocas-são-todas-iguais. Vinho. Nem-cá-nem-lá-é-assim-tão-perigoso. “Devagar no vinho, garçom”. Sobremesa. Muita sobremesa. Voltamos ao Donati e eu simplesmente apago.

Às 11 da manhã de domingo, nos despedimos do Hotel Donati e rumamos para mais aventura: tirolesa e arvorismo no Hotel Chalés Terra Nova. Com uma área de 450 mil m2, Terra Nova é o único entre os hotéis da região que oferece esse tipo de atração, disponível para qualquer pessoa que tenha entre 40kg e 100kg, ao menos um certo gosto por adrenalina, e disposição suficiente para escalar árvores e deslizar por cabos de aço que chegam à 300 metros de comprimento. À frente do grupo, uma repórter que escreve para uma revista de aventuras e esportes radicais acha tudo muito simples e seguro. No fim, a estagiária, não emite um som, não reclama, não trava, só sorri, sem medo algum. Enquanto isso, no meio… Mais de 40 eu sei que tenho. Coragem, no way! Então… que diabos eu estou fazendo aqui, preso nessa coisa?! Pelo menos o pinguço e o humorista estão numa situação pior: travados, pálidos, tremendo. Mas concluímos a missão, todos inteiros, vivos, e com a certeza de ter esgotado a carga de adrenalina reservada para o resto do ano de 2007.

O Hotel Pousada Esmeralda, onde almoçamos, marca nossa última parada. Somando-se ao frio da região e às belezas naturais da mata ao redor, o bom gosto na decoração e a privacidade do local encarregam-se de explicar a razão pela qual o hotel, fundado em 1992, tem nos casais (“recém-casados, gente reatando, namorados, amantes se escondendo dos conjugues… vêm de todo tipo”, alguém nos diz) os seus hóspedes mais tradicionais. Infelizmente, chove, e nossos planos de conhecer os arredores da Pousada Esmeralda acabam sendo deixados de lado, trocados por algumas xícaras de café, antes de nos despedirmos.

Já não é tão frio na estrada. Pouco após nossa chegada, Christian, o Crocodilo Dandie psicodélico, com seu esforçado português, nos chamou atenção para o fato de Itatiaia não se resumir às cachoeiras. Enquanto o verde e belo Parque Nacional vai ficando para trás, dando lugar à estrada, aos três carros de passeio que se chocam à menos de 100 metros do carro onde estou e toda agitação do dia-a-dia comum, concordo. Itatiaia é cachoeira, fauna, flora, boas comidas (e boas bebidas), pessoas e, claro, boas histórias para contar.

Uma resposta to “Impressões de Itatiaia”

  1. Joana Says:

    Racha minha cara, mano!
    Te amooooooooo figura!

    ;*

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