Sobre promessas não cumpridas e pessoas não-especiais

Enrolada em seus lençóis ela sorria, enquanto, em silêncio, eu levantava de sua cama. Buscava pelo chão do quarto as minhas roupas, poucos minutos após ter encontrado, no calor de seu corpo, o prazer e o remorso que álcool algum poderia me dar.
Minha cabeça ainda estava pesada, a boca amarga e a respiração ofegante. Não encontrava meus sapatos e ela achava graça quando eu limpava do meu rosto o suor com a manga direita da camisa de malha branca.

– Debaixo da cama…
– Oi?
– Os sapatos. Foram parar em baixo da cama.
– Ah, sim…

Eu mal conseguia olhar em seus olhos. Não que não fosse bonita, não que não cheirasse bem, não fosse legal e, até certo ponto, tivesse uma boa conversa. Mas não a queria enganar. Eu me esforçava para lembrar quanto tempo havia se passado entre o primeiro e o último gole, o carinho na face, a mão na cintura, promessas falsas sussurradas ao ouvido. Entre o sorriso de “você diz isso pra todas” e a mentira de “você é especial”. Entre o convite de “venha comigo” e a dúvida de “não tenho certeza”
Não. Eu já a havia enganado uma vez e não poderia repetir a mesma coisa, não na mesma noite, não enquanto o quarto não parasse de rodar.

Peguei minhas chaves, meus óculos e minha carteira. Ela quis mais um beijo, apertei sua mão e sim, a beijei. Na testa.
Um carinho em sua cabeça, um “você me liga quando?” e um “não sei… talvez até o fim de semana”.
Apesar de tonto, precisava andar, e a idéia de me trancar em uma caixa suspensa no ar não parecia agradável ao meu estômago. Me apoiei no corrimão e, não sem certa dificuldade, mãos trêmulas, acendi um cigarro e desci pelas escadas.
Sim, eu fui embora. E não liguei. E não voltei. E nunca mais voltei àquela cidade outra vez.

Estranho. Ela não foi especial, e, ainda assim, jamais me esqueci daquele rosto.

5 Respostas to “Sobre promessas não cumpridas e pessoas não-especiais”

  1. Estiva Says:

    Parabens, JW! Mto bom.

  2. Doug Says:

    Muito bom esse texto…vc nasceu pra coisa! Já pensou em lançar um livro?

  3. Renato Bosa Says:

    “Ela não foi especial, e, ainda assim, jamais me esqueci daquele rosto.”
    Que sarcasmo!!

    Parabéns, o texto é muuito bom!

  4. Jorge Wagner Says:

    valeu, grande Sebastião Estiva!
    Doug, o problema é aquele que te falei… acho tudo muito parecido, sempre com alguém indo embora… rs
    Renato, valeu pelo elogio e volte sempre!

  5. Vanessa Says:

    Sempre leio seus textos…
    mas hoje resolvi deixar um comentário.
    Você é talentoso e eu gosto dos temas que vc escolhe…rs
    boa sorte na trilha!….pra todos nós!…

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