Archive for agosto \28\UTC 2007

Dentes

agosto 28, 2007

Você me vê e sorri.
Eu, parado ali, banco de praça, cara emburrada, meio sem jeito. O mesmo cara de sempre.
Você também, pouco mudou. O mesmo casaco listrado, saia jeans, chinelinho de dedo. Os mesmos cabelos, o mesmo sorriso, o mesmo brilho no olhar. A mesma luz que já me fez engolir a seco, por tantas vezes, minhas pequenas e constantes frases de lamentações.

Há quanto tempo? Há quanto tempo não cruzamos os mesmos caminhos? Há quanto tempo não andamos com a mesma turma? Há quanto tempo – admito – sequer lembrava que você existia?
Mas agora você atravessa a rua. Para mim, quase slow-motion. Parece ter pressa, mas sua expressão não esconde: está feliz em me ver.
Movimenta a cabeça, e, delicada, a mão direita, acenando com um pequeno tchau.
Por um instante penso em centenas de coisas – em frases, em festas, em roupas, em qual será o número do seu telefone e em o que você vai fazer sábado a noite. Em como você é absolutamente linda em todos os aspectos que já tive a oportunidade de conhecer, do tipo como-adoraria-passear-de-mãos-dadas-com-essa-mulher, em dias cinzas como hoje, em dias de sol como ontem.

E agora você passa quase ao meu lado, ainda sorrindo.
Eu, parado ali, banco de praça, não mais emburrado, ainda sem jeito, retribuo com um “olá”. Três letras, uma palavra, e um imenso prazer em dizê-la.

Acontece quando menos se espera.
Aqui vou outra vez…
Humano, fraco, ranzinza, clichê. Quem sou eu para evitar?

No fim só quero estar onde morar o teu sorrir.

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agosto 27, 2007

“Mas isso é Brasil. Isso é assim mesmo. Infelizmente… né, patrão?”

Nova pilha de livros pra ler.

“Lembra daquele caso do pneu que soltou do caminhão, arrebentou o muro e matou a mulher na sala dela?”

Festa? Festas? Festas!
Dinheiro, ou falta dele.
Cadê? Um, dois… dez, vinte. Beleza!

Churrasco.
“Guarda o truuuunfo, cara!”

Itaipava.
“Congeloooou!”

“Traz mais pão, mais pão, mais pão!”
Historiador isso, jornalista aquilo.
Blablablá.

Cultura Poooop!
Beatles e Chê. E Blitz. E Xuxa. E novelas.

“Eu sou saúde! Eu sou saúde!”

“Calças de ir à academia deveriam ficar restritas às academias. Afinal são CALÇAS DE IR À ACADEMIA! Calças de ir à academia com vestido? Calça de ir à academia por baixo da saia? Da bermuda? Nãããão, cara! É feio demaaaais!”

Outra festa?
“DOZE reais? Mas a banda já tocou, são 3 horas da manhã…”
Nada feito? Beleza!

Forró dos cavaleiros.
“Eu não estou aqui, eu não estou aqui, eu não estou aqui!”
“Pára de olhar pra garotinha, cara! Você é um babaca! Um escroto! E ela está com calça de ir à academia por baixo do vestido! Seu babaca!”

Um banco de praça às 4 da manhã.
Cama 15 minutos depois.

Sonhos. Bons sonhos. Novos cenários. Outras histórias.
(Quem precisa de Freud pra entender isso?)

Um dia inteiro. Sorrisos e preocupações. Sustos e expectativas.
Noite. Ninguém. Nem recados.
Sono e dores nas pernas.

Ô finalzinho de semana esquisito!

[Decodificando Ruído]

agosto 20, 2007

Amadurecimento é uma palavra complexa quando o assunto é a trajetória de uma banda ou de um artista ao longo dos anos. Quantos não são os grupos que, por inúmeras razões, encontram seu fim pouco após o nascimento? Ou ainda os que estacionam na adolescência e se negam a sair de lá, passando o resto da vida presos à frases como “seu namorado é isso”, “a culpa é toda sua”, ou – e esse é um caso extremo – “cada poça dessa rua tem um pouco de minhas lágrimas”.
Há também aqueles que, em busca de reconhecimento, respeito, “novas possibilidades” ou seja lá mais o quê, perdem o rumo após um ou dois discos e, como na vida real, chegam à “fase adulta” confusos, perdidos, sem muita certeza de quem se é e de quem se pretende ser.
Felizmente, há ainda aquelas bandas que, com o passar do tempo, aprendem, entre erros e acertos, a burilar suas influências, definir suas pretensões e encontrar sua identidade, tornando-se, enfim, relevantes. Permanecendo entre bandas do underground nacional com lançamentos em 2007, podemos citar três nomes que se encaixam nessa categoria: a goiana Violins, a curitibana Terminal Guadalupe e a carioca Alice.

Alice teve seu início no ano de 2003, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, como um exemplo típico de banda com tudo para dar errado. A começar pelo nome. Formada inicialmente pelos amigos Cícero Lins (guitarra e voz), P.V. (guitarra), Rodrigo Abud (baixo) e Higor (bateria), que tinham em comum a média de 16 anos e o gosto por grupos como Nirvana, Silverchair, Offspring e congêneres, a banda passou um ano atendendo pelo péssimo nome de Mary Jane e tocando canções toscas calcadas no grunge e no punk.
Após a gravação de Demo I, registro dessa primeira fase, a história começa a mudar. Com as primeiras composições gravadas, o grupo percebe que o nome Mary Jane não serviria para representar o novo direcionamento musical pretendido e, na busca por um nome simples, decidem mudá-lo para Alice. É também nesse momento que a banda volta a atenção para grupos como Pixies, Radiohead e Interpol (algo fácil de se constatar através da citação nada sutil de Obstacle 1 na música O Fim, parte da primeira demo da banda), fortes influências no amadurecimento da recém-batizada Alice.
A medida em que a adolescência dos músicos ia chegando ao fim, o grunge da fase Mary Jane e Demo I era definitivamente posto de lado. E foi dessa forma que a banda chegou ao lançamento de Anteluz, em 2005, repleto de bons momentos, tanto nas músicas, quanto nas letras. Cícero, responsável pelas composições, passa a citar nomes de poetas como Carlos Drummond de Andrade e Pablo Neruda, além de compositores como Chico Buarque e Moska (cuja letra de Um e Outro foi assumidamente parafraseada em A Casa Vazia, dos versos “eu falo, você escuta / eu calo, você me culpa / desculpa, desculpa…”) entre suas influências.
Num Rio de Janeiro repleto de pequenos clones de Strokes e imitações baratas de Los Hermanos, Alice começa a se destacar pelo diferencial de suas músicas, ainda mais influenciadas por Interpol, mas também com algo de bandas ainda mais alternativas, como David Bazan e seu Pedro The Lion, por exemplo.

No início de 2007, depois de duas pequenas mudanças na formação (primeiro a adição de mais um guitarrista, Gilson Abud, e a substituição do baterista Higor por Paulo Marinho), Alice lança Ruído, aquele que pode ser considerado seu primeiro registro definitivo e – por que não? – “adulto”.
Gravado no Limongi Stúdio, no Rio de Janeiro, entre fevereiro e maio desse ano, Ruído é a prova do quanto uma banda pode alcançar a maturidade com o passar do tempo. Já nos primeiros minutos 8h00min, música de abertura do novo trabalho, percebe-se que, finalmente, Alice encontrou o seu caminho, a sua cara – impressão confirmada ao longo dos pouco mais de trinta minutos de duração do álbum, diga-se de passagem.

Segundo o dicionário, ruído pode ser entendido como “toda fonte de distúrbio ou deformação de fidelidade na transmissão de uma mensagem visual, escrita ou sonora”. Sendo assim, a banda tomou para si a idéia de criar um disco repleto de efeitos, chiados e outros recursos de “deformação de fidelidade” na transmissão da mensagem. Um dos primeiros pontos a serem observados nesse sentido é o fato de que nenhuma das dez músicas do álbum possui título. Ou melhor, possui. A exemplo de 8h00min, cada uma das faixas é batizada com um horário, como 9h10min, 12h07min e 15h25min. A explicação? De uma maneira não muito simples de entender, o álbum é permeado por uma história que envolve fotografias, pedidos de casamento, uma casa vazia, lembranças… e um personagem se questionando sobre cada um desses pontos ao longo de um dia completo, das oito da manhã à meia-noite e um seguinte.

Ok! De fato a história de Ruído não é das mais fáceis de se entender. Ainda assim, o álbum é repleto de boas letras, de rimas bem construídas e de versos nada óbvios. “Pra cada tombo, um passo / É muito pouco espaço / Pra cada sono, cedo / Pra cada medo, nego / É quase tudo falso”, de 8h00min, ou “As vezes te insulto, Maria / De fato eu não mudo / Pra que jurar se a foto é surda? / Calma…”, de 12h07min (inspirada em Anos Dourados, de Tom Jobim e Chico Buarque, e no poema Caso Pluvioso, de Carlos Drummond de Andrade, que recebem os devidos créditos no encarte) são bons exemplo de como uma banda pode evoluir com o passar dos anos, deixando para trás bobagens como “Atropelamentos são uma coisa normal / Meu presente de natal” e “A vida não é cruel / você que é bom demais”, de Paranóia, presente no registro da primeira fase da banda.
A primeira metade de Ruído já o faz valer a pena. Nela, destacam-se 9h10min e 15h25min, as mais próximas de serem consideradas os “hits” do álbum. A iluminada 15h25min, aliás, recorre à auto-referência para provar que Alice pode apresentar coisas bem mais interessantes do que as que vinha apresentando até então. Sem dúvida uma das melhores composições do grupo, há nela a mesma citação à Obstacle 1 experimentada na já tão distante e inocente O Fim. E assim, a banda remete ao passado para mostrar o quanto mudou de lá pra cá.
A segunda metade do disco, por sua vez, também não faz feio. A começar por 17h12min, de sonoridade shoegazer, que recorre ao mesmo recurso de auto-referência experimentado na faixa anterior – dessa vez com ainda mais clareza, sobrepondo os versos do refrão de O Velho Baú, presente em Anteluz (“Você pode ir embora / e me deixar de fora / voltar pro seu lugar / jogar meu soro fora”), aos versos “Faz de conta que alguém te chamou lá fora / você não vai mais embora? / Vai lá…”, criando um jogo de palavras interessante. Há ainda a curiosa 17h21min (algo entre Radiohead e Los Hermanos, cuja letra põe abaixo os planos de um relacionamento duradouro – e a única não disponível para download na página da banda no Trama Virtual), 20h00min e novos ecos de Anos Dourados, de Tom Jobim e Chico Buarque (cuja melodia remete de imediato), e finalmente o interlúdio 23h59min (composta por dois únicos versos: “Abre a porta pra mim / Abre essa porta pra mim”), que prepara terreno para a suave 00h01min, que encerra o álbum com um clima próximo à Sapato Novo, presente no derradeiro álbum dos Hermanos.

A saída da adolescência e a chegada à vida adulta (bem como todas as dificuldades relacionadas a isso), os novos livros na cabeceira e novos discos no som, os shows feitos após o lançamento de Anteluz, a entrada de mais um guitarrista e a troca de baterista, entre outras coisas, contribuíram para que Alice encontrasse sua maioridade. Impressiona saber que Ruído – um complexo caldeirão em que nomes como Chico Buarque, David Bazan, Los Hermanos, Interpol, Neruda, Sonic Youth, Radiohead, Carlos Drummond de Andrade e outros se misturam e se completam de tal forma que seria injusto apontar apenas um deles como maior responsável pela guinada criativa da banda – é fruto do trabalho de cinco jovens com média de 20 anos de idade.
Felizmente esse não é mais um dos muitos exemplos de bandas que estacionaram na adolescência. Felizmente o grupo que tinha tudo para dar errado, resistiu. E é claro, felizmente, depois de erros e acertos, Alice tornou-se enfim uma banda relevante.

“L’avventura”

agosto 18, 2007

Dessa vez é diferente. Não há pedidos, tempo para repensar, alternativas que não tenham sido tentadas.
Desce devaga as escadas, e, mesmo sem olhar pra trás, sabe que ainda ali, ela o observa encostada frente à porta do apartamento.
O maldito cachorro o estranha mais uma vez, e pela última vez, até onde todos sabem.

“Pelo menos disso eu não vou sentir saudades.”

Tenta não fazer alarde enquanto bate o portão. A rua deserta. Atravessa, olha para o prédio. A luz do quarto se acende.
Disfarça e sai, devagar, enquanto vê, por sobre os ombros, que ela o observa partir.

Respira fundo e, como costumava fazer nos primeiros dias – nos bons e felizes dias – se vira, abre um sorriso, acena com um beijo e dá alguns passos para trás antes de voltar ao seu caminho.

O coração bate apertado. Triste, resignado.

“Tinha que ser assim.”

Noites sozinho, telefones que não tocam, piadas sem graça sem ter com quem dividir.

Não é fácil. Nunca foi. Mas um dia tudo há de melhorar.
Pelo menos até o momento de provar em outra história o desabor de um novo fim.

Para quem quiser…

agosto 15, 2007

Vou disponibilizar aqui minha monografia, que teve como título “A Imprensa Musical no Brasil e a Revista Rolling Stone”.
Se alguém quiser baixar, fique a vontade.

Aqui, ó.

Columbia – Amanhã

agosto 14, 2007

Conforme anunciei no post passado, estreiou hoje de tarde o clipe de Amanhã – com o perdão do trocadilho – da banda carioca Columbia.
O resultado você confere logo abaixo. Eu achei beeem bacana e agora fico na espera do álbum.

Amanhã [Bruno Andrade]

“Não mude o tom da voz
Não se descontrole
Eu também não sei o que fazer

Não quero mais falar
Já conheço os efeitos
De não ter ninguém pra confiar

Aumente o volume
É melhor pra nós dois
Se não há mais o que dizer
Não tente negar depois

Solte as suas mãos das minhas e procure viver mais do que
palavras
Amanhã não pode ser igual, tem que ser mais
Muito mais do que promessas falsas sob luzes apagadas
E um bilhete no bolso esquerdo do seu paletó
Adeus

Sei que nada vai mudar
Além do seu sorriso
Mas não fique mudo ao me olhar

Assim pode ser mais fácil
Pode ser mais leve
Fechar os olhos e se controlar”

“Não pode ser igual… tem que ser mais”

agosto 12, 2007

“Aumente o volume
É melhor pra nós dois
Se não há mais o que dizer
Não tente negar depois”

Tanto o título desse post quanto o trecho citado acima fazem parte de Amanhã, composição da banda carioca Columbia, uma das favoritas da casa.

Como vocês podem imaginar pela fotografia acima, o single do primeiro álbum da banda – que, se tudo correr bem, deverá ser lançado em setembro via Allegro Discos – ganhou sua versão em vídeo.
Com direção de Henrique Sauer, fotografias de Natália Vale e estrelado pela atriz Natália Lage, o clipe tem como diferencial o fato de ser composto apenas por fotografias. Nada filmado. Tudo em stop-motion – técnica que exigiu de Sauder e Natália Vale aproximadamente um mês de pesquisas.
Tendo como cenário o Museu Aeroespacial e o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, Amanhã conta, segundo as palavras do release “a estória de quem espera por alguém que nunca vem. Esboça um delicado retrato composto por expectativas, esperanças e frustrações de pessoas comuns, que decidem viver mais do que palavras”.

O lançamento virtual do vídeo de Amanhã acontece na próxima terça, 14 de agosto, às 14h, no site www.aumenteovolume.com. Mas, por via das dúvidas, confira um trecho no youtube.

Mais uma pra lembrar

agosto 7, 2007

1h20 da manhã, e sob um fino sereno caminho por uma rua deserta. Ninguém à vista. Sons, somente latidos ao longe. Abaixo a cabeça e ao levantá-la, há à minha frente uma silenciosa van branca. Em seu vidro dianteiro, um grande adesivo: WWW.ESTACIO.BR.
Ah, sim, é claro! Obrigado por me lembrar.
Em minutos chego em casa e não demoro a deitar e dormir. Um longo dia pela frente, creio.
6 de agosto de 2007. Em algumas horas, minha formatura.

Os sapatos me apertam os pés, mas até que a calça de brim seria bem confortável, se não fosse a camisa por dentro dela. Me sinto um saco de pipocas. Ou um vendedor de enciclopédias. Ou um membro do Franz Ferdinand. Ou um dançarino de tango, talvez.

Maldita seja, Normandy! Uma empresa de ônibus que se preze não deveria colocar o pior e mais incomodo de seus carros para fazer um trajeto como Paracambi/Central. Mas é o preço que pagamos por morarmos bem – bem longe. Ainda assim, consigo dormir, quase apagar, entre o ponto de partida e o ponto de chegada.
Ainda meio tonto, atravesso a Presidente Vargas entre tropeços e esbarrões em senhoras idosas e estudantes. O trânsito foi favorável e ainda tenho 15 minutos para chegar, sem atraso, ao centro de convenções na entrada da Avenida Paulo de Frontin, cinco minutos a frente.
Flashs rápidos. Motoristas de kombi, dias de calor insuportável, dias cinzas, começar e terminar alguns períodos. Por dois anos, depois de ter cursado metade da graduação entre figurantes de Malhação, futuros “astros de MTV”, “punks” do Recreio, esforçados moradores de Campo Grande e todo tipo de gente que vê no campus Tom Jobim, na Barra – para onde voltei para terminar a monografia, entre fevereiro e julho – estudei no Rio Comprido, lá onde aquela menina levou um tiro há alguns anos e ficou paraplégica, lá onde uma outra menina levou um tiro na bunda no começo desse ano. Dois anos fazendo esse trajeto. E agora… quando vou voltar aqui? 401, Seu Pedro, Tereza, Baixinho, Rua do Matoso, “abaixa a cabeça que tá tendo tiroteio”, “tem alguém pro Catumbi?”. Não tão cedo, creio. E é estranho. Talvez eu vá sentir saudades.

Fabrício, George Micheal da Ilha, é o único entre os formandos com quem eu realmente fiz amizade. Mas tem o Carlos, o… ah, aquele outro que eu esqueci o nome! E aquela garota que fez algumas matérias comigo (não faço a mínima idéia do nome dela!), e aquela da turma de Ética, e aquela gaúcha que trabalha na Band. A garota de nome impronunciável amiga do Roger, jogador de futebol. E aquele cara que tinha cabelo na época do primeiro período. O Simply Red do curso de cinema, o libanês pai da filha da Juliana, o cara das camisas Mynt que era da turma do Doug e amigo do Thiago (que estudou dois períodos comigo e depois caiu fora), se formando em publicidade. Rostos conhecidos, semi-conhecidos, figurantes de uma história que começou há cinco anos, quando FHC ainda era presidente. Quando eu tinha cabelo (e grande!), ouvia Dream Theater e usava camisas largas. Ainda bem que o tempo passa…

Veste a beca, tira foto, tira foto, tira foto. Fila. Outra foto, outra foto, outra foto. “Deu reflexo no óculos. Abaixa um pouquinho a cabeça”, “Sorria”, “Sorria!”, “Como assim não consegue?!”, “Ah! Tá bom assim mesmo!”. Tempo para andar um pouco, para respirar, relaxar… como se fosse possível andar/respirar/relaxar dentro de uma roupa dessas.
Toca o telefone (e é bem difícil alcançá-lo no bolso da calça, por baixo da beca) e é o Fernando – um amigo que, em algum tempo, estará passando por essa constrangedora mas necessária situação –, avisando que chegou, e com ele, meus pais e minha namorada.

Mais filas, mais fotos e, no horário, somos chamados ao palco. Ao lado do corredor vejo meu pai – gritando “vai lá mulééééque!” – e, de lá de cima, Fernando, minha mãe e Luana (de longo e salto, linda, mas provavelmente morrendo de vontade de estar de jeans e tênis baixo).

Bem, a parte da cerimônia, vocês sabem. Ou pelo menos podem imaginar. Professores, discursos, homenagens a isso e àquilo. Bocejos e batidas de pé nervosas, rápidas e consecutivas de quem já não agüenta mais (Luana rindo no público), alguém gritando “eu quero ir ver novéééla!”, outorga do grau, entrega dos canudos (“Vai, Genilson! Segura no meu canudo e apareça sorrindo na foto!”) e de rosas mutcho gay (“É, Carauta, agora só falta você me convidar pra jantar…”), todos de pé cantando “Oh, Happy Day” (com direito à dancinhas à Carlton Banks), o clichê de We Are The Champions (caretinhas à Freddie), tchururus e essas coisas. Um brinde de champanhe barata (que desce num gole só) e então acaba. Turmas de dois campus, três cursos, três turnos, gente-pra-cacete, agora definitivamente graduados. Uns tem a vida ganha, outros já conseguiram algo em sua área, outros vão tentando com o que dá e outros, como eu, estão, com todas as letras, d-e-s-e-m-p-r-e-g-a-d-o-s. Se todos aqui, no desespero, resolvessem aprontar, haveria prisões especiais em número suficiente? Não consigo deixar de pensar nisso.

Alguns abraços e apertos de mão. Alguns “parabéns” e “boa sorte” de gente que nunca vi na vida, e que provavelmente jamais tornarei a ver. Sorte. Em nome de todos, obrigado. Vamos precisar. Sempre precisamos.

Já dentro do carro, respiro aliviado. Desabotôo a blusa (já por fora da calça, enfim!) e afrouxo o cinto. O que há de diferente entre 5 e 6 de agosto? Bem… na verdade, nada. Tenho a mesma idade, a mesma cara, o mesmo tamanho, os mesmos amigos, a mesma namorada, ainda estou sem emprego. E ainda assim, não resisto à sensação de dever cumprido, fim de uma etapa, início de outra.
Puxo o ar, aperto os olhos, abro um sorriso. Essa… essa eu venci!