Mais uma pra lembrar

1h20 da manhã, e sob um fino sereno caminho por uma rua deserta. Ninguém à vista. Sons, somente latidos ao longe. Abaixo a cabeça e ao levantá-la, há à minha frente uma silenciosa van branca. Em seu vidro dianteiro, um grande adesivo: WWW.ESTACIO.BR.
Ah, sim, é claro! Obrigado por me lembrar.
Em minutos chego em casa e não demoro a deitar e dormir. Um longo dia pela frente, creio.
6 de agosto de 2007. Em algumas horas, minha formatura.

Os sapatos me apertam os pés, mas até que a calça de brim seria bem confortável, se não fosse a camisa por dentro dela. Me sinto um saco de pipocas. Ou um vendedor de enciclopédias. Ou um membro do Franz Ferdinand. Ou um dançarino de tango, talvez.

Maldita seja, Normandy! Uma empresa de ônibus que se preze não deveria colocar o pior e mais incomodo de seus carros para fazer um trajeto como Paracambi/Central. Mas é o preço que pagamos por morarmos bem – bem longe. Ainda assim, consigo dormir, quase apagar, entre o ponto de partida e o ponto de chegada.
Ainda meio tonto, atravesso a Presidente Vargas entre tropeços e esbarrões em senhoras idosas e estudantes. O trânsito foi favorável e ainda tenho 15 minutos para chegar, sem atraso, ao centro de convenções na entrada da Avenida Paulo de Frontin, cinco minutos a frente.
Flashs rápidos. Motoristas de kombi, dias de calor insuportável, dias cinzas, começar e terminar alguns períodos. Por dois anos, depois de ter cursado metade da graduação entre figurantes de Malhação, futuros “astros de MTV”, “punks” do Recreio, esforçados moradores de Campo Grande e todo tipo de gente que vê no campus Tom Jobim, na Barra – para onde voltei para terminar a monografia, entre fevereiro e julho – estudei no Rio Comprido, lá onde aquela menina levou um tiro há alguns anos e ficou paraplégica, lá onde uma outra menina levou um tiro na bunda no começo desse ano. Dois anos fazendo esse trajeto. E agora… quando vou voltar aqui? 401, Seu Pedro, Tereza, Baixinho, Rua do Matoso, “abaixa a cabeça que tá tendo tiroteio”, “tem alguém pro Catumbi?”. Não tão cedo, creio. E é estranho. Talvez eu vá sentir saudades.

Fabrício, George Micheal da Ilha, é o único entre os formandos com quem eu realmente fiz amizade. Mas tem o Carlos, o… ah, aquele outro que eu esqueci o nome! E aquela garota que fez algumas matérias comigo (não faço a mínima idéia do nome dela!), e aquela da turma de Ética, e aquela gaúcha que trabalha na Band. A garota de nome impronunciável amiga do Roger, jogador de futebol. E aquele cara que tinha cabelo na época do primeiro período. O Simply Red do curso de cinema, o libanês pai da filha da Juliana, o cara das camisas Mynt que era da turma do Doug e amigo do Thiago (que estudou dois períodos comigo e depois caiu fora), se formando em publicidade. Rostos conhecidos, semi-conhecidos, figurantes de uma história que começou há cinco anos, quando FHC ainda era presidente. Quando eu tinha cabelo (e grande!), ouvia Dream Theater e usava camisas largas. Ainda bem que o tempo passa…

Veste a beca, tira foto, tira foto, tira foto. Fila. Outra foto, outra foto, outra foto. “Deu reflexo no óculos. Abaixa um pouquinho a cabeça”, “Sorria”, “Sorria!”, “Como assim não consegue?!”, “Ah! Tá bom assim mesmo!”. Tempo para andar um pouco, para respirar, relaxar… como se fosse possível andar/respirar/relaxar dentro de uma roupa dessas.
Toca o telefone (e é bem difícil alcançá-lo no bolso da calça, por baixo da beca) e é o Fernando – um amigo que, em algum tempo, estará passando por essa constrangedora mas necessária situação –, avisando que chegou, e com ele, meus pais e minha namorada.

Mais filas, mais fotos e, no horário, somos chamados ao palco. Ao lado do corredor vejo meu pai – gritando “vai lá mulééééque!” – e, de lá de cima, Fernando, minha mãe e Luana (de longo e salto, linda, mas provavelmente morrendo de vontade de estar de jeans e tênis baixo).

Bem, a parte da cerimônia, vocês sabem. Ou pelo menos podem imaginar. Professores, discursos, homenagens a isso e àquilo. Bocejos e batidas de pé nervosas, rápidas e consecutivas de quem já não agüenta mais (Luana rindo no público), alguém gritando “eu quero ir ver novéééla!”, outorga do grau, entrega dos canudos (“Vai, Genilson! Segura no meu canudo e apareça sorrindo na foto!”) e de rosas mutcho gay (“É, Carauta, agora só falta você me convidar pra jantar…”), todos de pé cantando “Oh, Happy Day” (com direito à dancinhas à Carlton Banks), o clichê de We Are The Champions (caretinhas à Freddie), tchururus e essas coisas. Um brinde de champanhe barata (que desce num gole só) e então acaba. Turmas de dois campus, três cursos, três turnos, gente-pra-cacete, agora definitivamente graduados. Uns tem a vida ganha, outros já conseguiram algo em sua área, outros vão tentando com o que dá e outros, como eu, estão, com todas as letras, d-e-s-e-m-p-r-e-g-a-d-o-s. Se todos aqui, no desespero, resolvessem aprontar, haveria prisões especiais em número suficiente? Não consigo deixar de pensar nisso.

Alguns abraços e apertos de mão. Alguns “parabéns” e “boa sorte” de gente que nunca vi na vida, e que provavelmente jamais tornarei a ver. Sorte. Em nome de todos, obrigado. Vamos precisar. Sempre precisamos.

Já dentro do carro, respiro aliviado. Desabotôo a blusa (já por fora da calça, enfim!) e afrouxo o cinto. O que há de diferente entre 5 e 6 de agosto? Bem… na verdade, nada. Tenho a mesma idade, a mesma cara, o mesmo tamanho, os mesmos amigos, a mesma namorada, ainda estou sem emprego. E ainda assim, não resisto à sensação de dever cumprido, fim de uma etapa, início de outra.
Puxo o ar, aperto os olhos, abro um sorriso. Essa… essa eu venci!

5 Respostas to “Mais uma pra lembrar”

  1. Doug Says:

    Parabens!!! Nossa, é bem legal ver como nós mudamos num periodo de 4,5 anos, seja fisicamente, quanto mentalmente, comportamentalmente…embora tenha gente que não pareça ter mudado..rsrs

    Bom, agora é hora pra uma nova luta…e desejo sucesso nessa que eu ainda to no barco, e a tempestade é forte…rumo a independencia financeira…depois constituir familia…educar filhos…descobrir o viagra…e por ae vai…

  2. Fernando Says:

    é nois! daki um ano se DEUS quiser, passo por esse constrangimento! satisfatório! hahaha abraços e sorte.

  3. Lara Says:

    parabeeennnssss =]

    husheushua to lembrando do ‘foi assim que decidi’

    ehgauyshgauys

    beeeeeeeijo

  4. Carina Says:

    É, daqui a 4 ou 5 anos [acredita que eu não sei?], sou eu… Começo amanhã, até que enfim!! =]
    Parabéns Jorge!

    bjocass

  5. Carol Rodrigues [honey] Says:

    segura meu canudo e apareça sorrindo na foto rsrsrsrsrsrss
    saudade de vc, querido
    ;o)
    bjos

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