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Armandinho, você tem franja?

outubro 8, 2007

Pêlos, mudanças na voz, mudanças nas curvas, hormônios, hormônios, hormônios. Adolescência é aquela fase cheia de clichês em que a gente acha que deixou de ser criança e pensa que começo a ser adulto. Adolescência é a palavra de ordem quando o assunto é o tema central do Dibob, a profundidade nas letras de Armandinho e o público presente na reunião de banda + cantor realizada pela versão carioca do Estúdio Coca-Cola, no Hard Rock Café, na noite de sete de outubro.

Passam das cinco. Duas filas na entrada. De um lado, uma urbe de meninos e meninas. Se somadas e divididas as idades, uma média de 16 anos, no máximo. De outro, os convidados. Meia dúzia de vencedores de promoções, mais a “imprensa convidada” – alguns blogueiros, uma repórter da Rede TV! e seu cameraman.
Entramos e, após uma volta de reconhecimento, vamos ao que realmente interessa: a comida e a bebida da área vip (repleta de pseudo-celebridades mirins, do tipo ex-atriz de Turma do Didi, aquele garoto que fez o filho do Alexandre Borges naquela novela lá e aqueeele que interpretou gêmeos naqueeela novela da Record). Faltam vinte minutos para as sete, hora marcada para o início dos shows. Pastéis de queijo, latas de refrigerante e alguns chopps depois, estamos prontos para irmos aos camarins.

Ou não.

Ninguém é propriamente o que possa se chamar de fã de nenhuma das duas atrações do evento. Ninguém sabe muito bem o que perguntar aos caras do Dibob, os primeiros entrevistados, quando alguém resolve descontrair:
– Como foi pra vocês vencerem o VMB?
– Cara, a gente nem foi indicado…
– Ué, não?! Mas vocês não são o Nx…
Nós rimos. Eles ficam sérios. A piada foi boa, vai… mas deixa pra lá.
Ensaios: “nós, o Armandinho e o percursionista”. Sublime, Bob Marley e outros gostos em comum. Troca de experiências: “ele me ensinou a tocar reggae, de cima pra baixo, de cima pra baixo…”. Medo: “ele queria uma versão mais pesada de Ursinho de Dormir, mas a gente achou mais legal deixar mais com a cara dele mesmo”. E isso é tudo.
– Anota o nome da banda aí: é Dibob. – eles brincam.
Como assim? Não é Forf… ah, melhor não perguntar.

– Cara, sério mesmo que você era gago?!
– E além de gago, ago-gora eu to-to sem voz. – responde o rouco, simpático e (nem tão) ex-gago Armandinho.
Contando com esse, nos últimos meses, o senhor Antônio Armando foi atração em três Estúdios: o primeiro, em junho, ao lado do Nx Zero, exibido pela MTV (e repetido em Recife, em setembro, em um evento sem ligação com a Coca-Cola); o segundo, em setembro, na versão paranaense do estúdio, ao lado do Fresno, em Londrina; e esse agora, no Rio, ao lado do Dibob. “Guinada emo no som, Armandinho?” – alguém pergunta em tom de brincadeira.
– Cara, na verdade eu nem sei o que é emo.

Tudo bem, Armando. Pra todos os efeitos, ninguém sabe. Não tem como falar de Fugazi e Embrace pro garoto-franjão de 17 anos que passa por perto nesse momento. Não tem como falar de Mineral ou Hot Water Music para uma versão tupiniquim de Jack Johnson que diz que não faz reggae (“Eu faço música pop. Tem uma levada praieira, algo de reggae, mas é música pop”) e que, no alto de seus 37 anos, tem como sucesso algo tão adulto quanto Ursinho de Dormir. Fica por isso mesmo: ninguém aqui sabe o que é emo.

– Esses encontros só vêm a somar. A faixa-etária do nosso público é a mesma. A gente também faz muita música romântica
Palavras dele. Então tá…

Acabou o tempo, ele precisa tirar fotos. Mas… diz uma coisa:
– Debaixo desse boné aí, Armandinho, você tem franja?
Ele ri e mostra que não. Mas bem que poderia…
***

E o show? No fim, é o que menos importa. Mas justiça seja feita: surpreendente e inesperadamente bom. Em especial pela primeira parte, quando o Nx, digo, a For…, o Dibob sobe ao palco, despeja quase uma hora de isso-seria-muito-bom-em-um-saral-de-colégio, incluindo aí uma versão bem bacana para Open Your Eyes, do Snow Patrol. Algo muito mais honesto e interessante do que o que um Dinho Ouro Preto de camisa regata balindo “Fala aí, moçÁáÁádaAaAaA”, ou uma Xuxa quarentona cantando “Todo mundo tá feliz, todo mundo quer cantar” poderia fazer.

Enquanto Armandinho apresenta sua parte solo, dedicamos maior atenção à mesa de salgadinhos e às latinhas de energético e tentamos descobrir quem é quem entre as pseudo-celebridades mirins (“Aquela ali faz Zorra Total”, “aquele outro foi filho do Pasquim numa dessas novelas das sete”, “esse baixinho aí é alguma coisa também… eu acho”, “esse cameraman da Rede TV! é aquele garoto que fez o DDD da Embratel…”). A banda é boa, e isso é tudo.

O encontro no palco. Convenhamos: nem com muito bom humor e boa vontade dá para se esperar grandes coisas de Desenho de Deus e Ursinho de Dormir. Ou de um (já esperado) cover de Jack Johnson. Mas os covers para Ela Disse Adeus, Pensamento e Redemption Song (de Paralamas, Cidade Negra e Bob Marley, respectivamente) até que funcionam. E o evento chega ao fim pouco antes das dez.
***

Pais se aglomeram na saída do Hard Rock Café e no primeiro piso do Città America aguardando para levar seus pequenos para casa, em segurança.
Ah, a adolescência! Aquela fase cheia de clichês em que você sai, assiste seu show, vê sua garota e volta para casa às dez, afinal, logo você entra em prova, e seus pais não gostariam que você perdesse aula amanhã. Você tem que estudar, você tem que crescer. Não pode ficar nessa de chegar aos 40 pensando ter 16.

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Enquanto isso, na roça…

outubro 5, 2007

Talvez você já tenha ouvido, ou pelo menos ouvido falar sobre uma banda cá dos lados do Feudo chamada Silvertape. Se não, deveria. Apesar de não ser uma daquelas que eu ouça diariamente – ou, sei lá, três vezes na semana -, a banda tem o seu mérito e faz bem o que se propõe.

Pois então. Se você mora pros lados de Nova Iguaçu, Queimados, Seropédica, Mendes etc – ou seja, próximo à Paracambi (e longe do resto) – anote aí: o Marcos Almir e o Régis, guitarrista e baixista da já citada Silvertape, prepararam, pra esse final de semana, isso aqui, ó:

1ª Liga do Rock“, uma porrada de banda das quais nunca ouvi falar, mais Silvertape e Ramirez (aquela que gravou o primeiro disco quando tinha quatro – e só quatro – músicas legais).
Não é a coisa mais fantástica do mundo, mas quem está por esses lados sabe que é melhor algo assim do que o de sempre, que é nada.

Palmas pra quem faz acontecer.

Boa noite

outubro 4, 2007

– Ei, onde você está? Sério, não vai dizer que você… você não

Na janela, ela pensa. Duvida. Faz que vai, mas duvida. Não é possível que… é possível sim. Vai. Vê. Ele, na calçada em frente.
Ele? Eu.
– Eu pensei que você não…
Ri. Não pensou isso. Sabia que sim.

Ok, está frio, eu sei. Mas… desce?
É tarde.
Desce?
Mas
Desce.
Não foge. Sorri. Olha pros lados. Sorri. “Você é doido?”.
Sou.

Boa noite. Seu beijo de boa noite.
Pensa, se despede. Ela também quer mais. Quer, mas…
Tudo bem. Fica pra próxima.

Tarde. Mãos nos bolsos, andar apressado, ruas frias e vazias. E essas ruas sabem o meu nome. Com o tempo, essas ruas aprenderam a não duvidar. E isso é algo que talvez você ainda precise aprender.

A altas horas da noite. A manhã seguinte. E o seu perfume ainda está nas minhas mãos.

Sábado

outubro 1, 2007

– Hey, eu sou o único cara de barba por aqui?!

À mesa de um aconchegante restaurante na pacata cidade de Vassouras, patrimônio histórico nacional, debates à cerca de Pet Sounds, Rubber Soul e Sargent. Minutos e metros adiante, uma razoável apresentação de um cansado Milton Nascimento.

Mensagens. E uma estranha e inesperada sensação de ausência.

Rostos conhecidos em meio aos anônimos. E um ex-baixista de thrash alegando ter chorado em Coração de Estudante.

São quase quatro quando voltamos à estrada. O ex-boêmio, agora pai de família. O deslocado. O baixista. O motorista bêbado trocando olhares afetuosos entre frases ásperas com a namorada preocupada.

Entre curvas mal traçadas, o som de um velho sucesso dos Smashing Pumpkins vem encerrar aquela que foi, sem a menor sombra de dúvidas, a mais estranha das semanas em muito, muito tempo.