O bastante

Duas da manhã, ruas vazias, desertas, mas iluminadas. Fecha o guarda-chuva, diminui os passos e se sente melhor assim, se sente bem enquanto o frio sereno cai sobre seus ombros.
“And it’s hard to live and its hard to die, and it’s hard to give your heart away”. Onde foi que ouviu isso? Não consegue se lembrar. Em todo caso, “Viver é foda, morrer é difícil” também lhe vem à cabeça. Sabe que Renato tinha lá sua razão, e pouco importa se não há, pelo menos não durante essa noite, pelo menos não depois de fraudar olhares e sorrisos, alguém para quem possa, alguém para quem queira completar com o verso seguinte. Precisamos de nós mesmos. Manter os pés no chão, manter a mente em ordem. Nada lhe parece ser mais necessário que isso.

Amor não é o suficiente.
Essa é a única certeza que tem depois das últimas horas. A única certeza depois das últimas garrafas, depois de ouvir as lamúrias de um velho e sumido amigo, vivendo sua triste mudança de rotina, seu primeiro fim de semana na condição de solteiro, depois do término de um longo namoro de quase quatro anos.
Eles se amaram durante todo esse tempo, não?
Ele foi para casa bêbado, triste e com os olhos marejados.
Eles se amavam até o começo do mês, até duas semanas atrás.
Ela? Com esse tempo, com essa chuva que teima em cair de quinze em quinze minutos, é provável que sequer tenha saído. É provável que tenha ficado calada em seu quarto, ouvindo os cds que ganhou de presente ao longo desses anos, vendo suas fotos ou ainda aquelas peças estranhas feitas de durepox retorcido que fizeram juntos e ousaram chamar de artesanato.
É claro, eles ainda se amam nesse exato instante. Mas… que diferença isso faz? Não é tudo, não basta, não é… o suficiente.

Ainda digere a história do amigo. E pensa em como é estranho ouvir outra pessoa dizer que “teria sido mais fácil se tivéssemos brigado”, frase tão familiar.
Foram os livros. E os filmes. E todos aqueles malditos discos. “Não existe plenitude”, ele pensa. “E é melhor que nos acostumemos com a idéia. É melhor não pensarmos no assunto. É melhor… deixar o barco correr.”

“I will always, go by your side / but it’s hard to get drunk tonight / and It’s hard to smoke your mothers cigarettes / afraid of stealing / afraid of lying / afraid of losing my mind”. Ainda não lembra de quem era, mas tem quase certeza: era assim que terminava a canção.

7 Respostas to “O bastante”

  1. Doug Says:

    Pois é… tem horas que tudo parece um filme de comédia romantica…só que sem final feliz…

  2. Carina Says:

    Eu acredito que amor seja o bastante, pq às vezes amar é foda, viver é foda, e viver amando é mais foda ainda, mas é ele mesmo que dá forças e impulso pra superar as barreiras. Eu ouvi uma coisa esses dias… quer dizer, duas coisas que eu relacionei… 1º td tem a ver com a importancia que a pessoa tem na sua vida… e isso faz com que 2º vc escolha se vale a pena ou não lutar e insistir naquilo…

    Canceriana cara, romântica até perder de vista… 😉

  3. Lara Says:

    já te falei que o texto tá ótimo!
    amar eh foda sim…..mais foda ainda esquecer quando termina. =SS

    te adoro velho amigo =))

    beeijoss

  4. bizzy Says:

    sabe qual é o melhor de ler seus textos?
    voce consegue se ver EXATAMENTE dentro das linhas.
    e, definitivamente, ‘amor nao é o suficiente’.

  5. - joana. Says:

    Ai Jorge Wagner!
    Como você me posta uma coisa dessas, vou chorar!
    Ahahahahhahahahaha!
    Ao mesmo tempo que concordo com o seu texto, concordo com o que a Nina disse ali em cima! =/

    O texto é FODA!

    ;* mano

  6. Thais Says:

    O amor não é o suficiente. O trabalho não é o suficiente. Aquele livro não é o suficiente. Nós mesmos não somos o suficiente. Nada ao certo é o suficiente, nem mesmo a junção de todas as coisas que existe é o suficiente, porque então quereríamos o que não existe – e certamente já o fazemos. Já diria Morissey “Heaven Knows I’m miserable now”. Aí depois dessa constatação vêm as desgraças juvenis até nos darmos conta que é assim mesmo. Probleminha insolúvel, raso e contínuo. Mas há as compensações, amém. Restam as canções. E a maioria passam a fazer sentido.

  7. Mayara Says:

    Cara!! Muito bom seu texto! rsrsrsrsrs
    Mas… duvido q essa menina tenha ficado em casa enquanto seu ex saía por ae e voltava bêbado… rsrs
    Te afirmo q ela saiu e se divertiu muito, mas de um jeito de quem conhece a Plenitude!
    Que essa história não se repita mais, se é que já aconteceu… rs

    Tem horas q precisamos fazer escolhas!! Realmente… Dependendo de como se ama, o maor não é tudo!

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