Uma boa pessoa

– Você não esperava que eu fosse me sentar aos pés da sua cama e fizesse massagens nas suas pernas, não é mesmo?!
– Não, claro que não!
– Então qual é o problema?
– Não é isso, quer dizer… só pensei que você poderia ficar um pouco mais por aqui…
Sorrio com ar de você sabe que isso não vai acontecer, e enquanto calço meus tênis me vejo sentado aos pés da cama. Por alguns segundos deixo minha mão tocar sua canela, e isso é o mais próximo de uma massagem que sou capaz, que estou interessado em fazer.

Aline não é má pessoa. Longe disso. Na verdade, ela até que é bacana demais para acabar apaixonada por um canalha como eu. Mas isso, é claro, é algo que nunca vou dizer.
Bem que eu queria evitar o dia de hoje. Bem que finjo que não a vejo, mas é difícil escapar de alguém quando essa pessoa atravessa a rua e senta do seu lado em uma lanchonete. Não tem como fugir de algo assim. Não dá pra limpar a boca, sorrir, cumprimentar, se levantar e sair. Eu posso até passar longe de ser o cara mais simpático do mundo – na verdade, eu posso até passar longe de ser qualquer coisa parecida com simpático – mas não a deixaria falando sozinha.

É sempre a mesma história: blábláblá, você está sumido, etc. Não importa se você vai sempre aos mesmos locais, se faz sempre as mesmas coisas – toma sempre os mesmos ônibus, compra pão, todo bendito dia, na mesma padaria, alivia seus resfriados e compra seus preservativos sempre na mesma farmácia. Simplesmente não interessa. Sempre vai aparecer alguém para reclamar do quanto você não dá notícias, não aparece mais e todas essas coisas. E essa, hoje, é Aline.
Com seu jeito rápido de falar, e sua mania levemente irritante de tocar meu braço a cada três frases, ela pergunta sobre meu filho (“morando com a mãe lá na cidade dela”), minha ex-esposa (“é, separamos há um tempo, aí ela foi embora e levou o garoto junto”), meus maus hábitos (“estou devagar, mas digamos que não sou propriamente alguém que se poderia chamar de bom exemplo.”) e toda a minha vida nos últimos oito meses. Diz “não acrediiiiito” e me faz repetir algumas vezes uma espécie de resumo em ordem cronológica dos Grandes Acontecimentos do tempo em que ficamos sem nos ver. Algo do tipo: “É, nós brigamos. Daí ela quis voltar. Aí acho que ela percebeu que se três anos de convívio e um filho não foram suficientes pra me fazer sentir por ela algo relativamente próximo do que ela sentia por mim, nada mais faria. Aí fui pra um apartamento menor. Aí consegui um emprego aqui perto”, etc. Penso em completar com “aí estava lanchando em paz quando você atravessou a rua e veio aqui me atrapalhar”, mas deixo pra lá.

Uma coisa que eu, de vez em quando, admiro nas pessoas é a capacidade de ignorar por completo as opiniões e as reações de outros diante de seus atos ou palavras. Somado ao largo e sincero sorriso, e à forma como ela prende seus cabelos deixando uma pequena mecha solta do lado esquerdo do rosto, talvez esse seja um dos charmes de Aline: a capacidade que ela tem de abstrair e continuar falando enquanto tudo que consigo é lhe retribuir com olhares de suposto espanto, palavras monossilábicas e sorrisos em canto de boca.

Penso melhor e percebo que talvez não tenha sido ruim ser abordado por ela assim do nada, bem na hora em que resolvo lanchar antes de seguir meu caminho. Penso melhor e deixo de lado as palavras monossilábicas (as troco por frases e perguntas clichês), e em pouco tempo sei que ela adorou “aquele filme que tem as músicas daquele carinha do Pearl Jam”, que tem um cara de nome composto que não é propriamente seu namorado (embora a leve para jantar todo final de semana), que se forma no final do ano e que comprou “um livro sobre blues… daquele cara de Anti Herói Americano”, mas que está sem tempo e ainda não o leu. E quando menos percebo estou no apartamento dela, com a desculpa de pegar o livro emprestado.

Livros, CDs, filmes, festas e outra meia dúzia de assuntos antes que jeans e camisetas se misturem pelo chão, e antes de uma estranha conversa sobre massagens e sobre minutos a mais, que não chegam a acontecer.

Essa é minha primeira semana de trabalho nesse bairro, num edifício a quinze minutos do condomínio onde Aline mora. A partir de amanhã, tomo outro caminho, passo por outra rua, pego outro ônibus e sumo, por oito meses ou mais.

Aline é uma boa pessoa. Eu é que não sou.

7 Respostas to “Uma boa pessoa”

  1. bizzy Says:

    TOTALMENTE sexual.
    ADOOOOOOOOOOOOOOOOORO!
    auhauhah

  2. Leo (ou Zito né?) Says:

    😉

  3. aflavias Says:

    Ola, vi teu blog por acaso e li tua crônica
    achei bem legal, você escreve muito vem.

  4. Daniel Barros Says:

    Muito bom o texto!
    Muito mesmo. EU tava meio sumido desse blog, mas agora voltei com tudo!rs

    Parabéns rapaz.
    …e Aline é uma boa pessoa!

    Abração!

  5. Thais Says:

    Jorge,

    Penso que com o decorrer dos dias a gente vai ficando cinza e nublado como as cidades. Tomamos uma tonalidade difusa em tom pastel como um claro dia nublado. Soamos uniformemente como o tom histérico das ruas que passam a ficar numa mesma freqüência – aquela que a gente ignora. E é assim que nos cai a casmurrice cotidiana, pois refletimos na gente o próprio cansaço dos dias. Esses dias me deparei com uma frase na Piauí de Outubro, no diário de Kenneth Tynan a qual dizia: “(…) Só as necessidades básicas – comida e sexo – conseguem me tirar do torpor. Hei de morrer me debatendo em apatia.”
    Sabemos do esforço, das inconstâncias da paciência, em assuntos que não vão nos levar a absolutamente lugar nenhum, mas ainda tentamos articular num suspiro pérolas do lugar comum – e todos ficam bem assim. Ah se fosse possível extrair o que realmente precisamos daqueles que encontramos! Aline é uma boa pessoa, é, todas as Alines são.
    Gostei do texto. Tô deixando a página nos meus favoritos. Até mais.

  6. - joana. Says:

    Ai Jóóóóógi, meu irmão!
    Ahahahahahhahahahahahaha!
    Você tem A capacidade de me fazer parar tudo pra ler seus textos, as telinhas do msn piscam e piscam e eu só lendo! =D
    Todas as alines são um saco, sempre tão efusivas… na maioria das vezes, no momento de carência, são as alines que estão ali! Mas realmente não são más pessoas! =D

    Adooorei o texto… sempre adoro, né?
    ;*

  7. karen Says:

    haha, sensacional.
    apesar que o meu sonho dessas coisas ainda continua destruído depois do nosso papo no msn. hahaha

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