Parte 2

Fui para a sacada como se não houvesse mais ninguém ali naquele apartamento. Olhava para os prédios à minha frente, e para as pessoas e carros que passavam logo abaixo, sem conseguir me fixar em nada. Mãos e pernas tremiam ainda mais do que o de costume enquanto eu tentava sem sucesso entender o que realmente estava se passando ali.
Parado e mudo do lado de fora do apartamento, eu teria fumado um maço inteiro de cigarros caso não tivesse abandonado o vício alguns poucos meses antes. Por sorte, guardava uma garrafa de vodca barata em algum lugar da cozinha. Nunca uma porcaria como aquela foi tão necessária quanto naquele momento. Não fosse por conta da vodca, teria ficado ali naquela sacada, mais trêmulo e pálido que o habitual, talvez até anoitecer.

Primeiro passei por todo o apartamento, em direção à cozinha, olhando fixo para o chão. Só depois de dois copos bem servidos, com o terceiro em mãos, foi que consegui voltar para a sala. Ela ainda estava lá, é claro. Estava sentada em um dos cantos do sofá, com o rosto vermelho de quem já havia chorado, esfregando as palmas das mãos sobre suas coxas como fazia sempre que ficava nervosa e me encarando fixamente como se perguntasse “e agora, o que nós vamos fazer?”.

Até parece que tínhamos alguma alternativa.

Antes de qualquer coisa eu precisava me acostumar com a idéia. É claro que eu queria ser pai! A questão não era essa. Mas… sabe quando você está ouvindo Five Leaves Left, e quando Three Hours termina, você pula para Day Is Done ao invés de simplesmente deixar Way To Blue rolar? Não é que você ache a música ruim, só não é a que você está afim de ouvir naquela hora.

Moramos juntos por três meses, acho, mas estávamos separados havia umas duas semanas quando ela veio me dar essa notícia. Ela tinha ido para a casa de uma amiga. Aliás, em pouco mais de um ano, havíamos terminado pelo menos umas quatro vezes, e é possível que eu esteja sendo gentil nessa contagem.

Eu gostava dela. Eu realmente gostava dela. Quer dizer… gostava da companhia, gostava da segurança que era ter alguém por perto, gostava do sexo, gostava de ouvir o que ela havia entendido quanto aos filmes que assistíamos juntos. Mas, ainda assim, às vezes me cansava. Cansava do som da voz, do cabelo despenteado e do rosto inchado ao amanhecer, dos pés dela batendo contra minha canela naquela cama que insistia em parecer pequena. Cansava das mesmas frases, dos mesmos agrados, das mesmas surpresas que nunca surpreendiam mais ninguém além dela mesma. Cansava de ir sempre para os mesmos lugares com a mesma companhia. E era aí que a coisa toda desandava. Era aí que eu desligava o celular, ia pra outro lugar, saía com outras pessoas e, no dia seguinte, quando ela se achava no direito de me cobrar, a mandava para a puta que pariu e voltava a ser solteiro até o dia em que ela me ligava pela madrugada e me pedia pra subir. No fim das contas, a verdade é que ela sempre sentiu por mim algo bem mais forte do que consegui sentir por ela.
Mas que ninguém me acuse de não ter tentado! Talvez até por falta de vontade de sair por aí procurando outra pessoa (uma pessoa que quisesse passar mais que duas horas do meu lado), por preguiça, mas sempre tentava.

– Eu vou mesmo ser pai?
– Foi o que eu disse.
– Sério mesmo? Quer dizer, você tem certeza?
– Claro que tenho! Estou atrasada, fiz exame…
– Mas… é meu mesmo?
– É claro que é seu, seu filho da puta!
– Ah, é…
– Fala alguma coisa, caramba!
– Puta merda, eu vou ser pai!

Bruna voltou para o apartamento na manhã seguinte. E por aproximadamente um ano e meio, ficamos juntos e relativamente bem. O que não necessariamente significa que, por uma dúzia de vezes, eu não tenha me cansado dela e daquela barriga enorme. Dela e dos malditos desejos. Dela e do enxoval do bebê, e da escolha de nomes. E era aí que a coisa toda desandava. Era aí que eu desligava o celular, ia para outros lugares e saia com outras pessoas.

8 Respostas to “Parte 2”

  1. - joana. Says:

    Essa Bruna tb é burra, hein?
    Tinha que ter mandado o mané pastar…coitada!
    Ahahahahahhahahaha!
    Não posso ler esses textos durante a noite, fico muito vulneravel nesse horário… me envolvo com as histórias! xD
    Ai dios, só to falando merda!
    Vou lá! =P

    \o hasta luego, hermano!

  2. karen Says:

    cara… hahaha
    preciso ter uma conversa séria com esse personagem pra ele me sinar a ser desse jeito!
    abaixo o amor!
    ;P

  3. clareeenha Says:

    Fantástico!

  4. Mayara Says:

    Vc tah entre os meus favoritos!!
    Escreve com a certeza de que td oconteceu dessa maneira… sabe exatamente expressar sentimentos e sensações nas horas mais propícias… Td cinza… porém com uma realidade incrível… fora do comum… vc sabe ser mais real do q a realidade! Isso é possível?? Sim… para o Jorge Wagner, isso é exatamente possível!
    Parabéns!
    Tem carteirinha para virar fã?? rs
    Se tiver… to nessa!!!

  5. Thais Says:

    Jorge,

    Não sei porquê, mas os teus textos me incitam a formular aforismos e outras reflexões. Coisas que vc bem deve entender. Basta-me dizer do sorriso que esbocei ao ponto final.

  6. Daniel Barros Says:

    Vc é um escritor de mão cheia!

  7. Murilo Says:

    Talvez eu complete a sua frase, faça mil drinques com suas as lágrimas
    E ai sim, caso encontrasse o que sentem todas as grávidas
    Eu seria o que sou sem ter o que você é
    Pois eu não aprendo a lição, não tenho livro e nem levo dever-de-casa.

    Procuro dentro de você algo que faça sentido pra mim
    Vago no seu mundo tentando morar em algum lugar
    E só o que faz sentido é a saida, o fim
    “Acorda meu amor, já é hora e levantar’

  8. Jorge Wagner Says:

    boa, Murilão!
    é seu esse texto?

    e agradeço pelos comentários! pretendo escrever a “parte 3” em alguns dias. =]

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