Parte 3

– E você… não vai mesmo fazer nada, né?
O que eu poderia fazer? Ela parecia decidida dessa vez. Não seria certo atrapalhar. Não seria certo dizer “Calma! Pensa melhor se você tem certeza de que é isso mesmo que quer!”. Não dava pra fazer isso, caramba! Eu a conhecia, e apesar dessa ter sido uma das poucas vezes em mais de três anos que a vi realmente certa de uma decisão, sabia que a soma de meia dúzia de palavras com mãos ao redor de sua cintura e um beijo entre o pescoço e a orelha seria razão suficientemente forte para fazê-la mudar de idéia.
– Eu ajudo a arrumar as malas.

Não é difícil entender porque tivemos lá a nossa história. Vindos de cidades vizinhas do interior fluminense, chegamos a São Paulo mais ou menos na mesma época, com alguns meses de diferença. Graças a alguns amigos em comum e àquela coisa de “tenho uma amiga que se mudou para aí também por esses dias”, nada mais natural que, em pouco tempo, estivéssemos nos encontrando pelo menos duas vezes na semana. Acrescente aí alguns telefonemas e mensagens em alta madrugada. Acrescente aí o fato de que nunca fiz – e nem nunca quis fazer – esforço para resistir a sorrisos e, vai por mim, pelo menos há três anos atrás, Bruna tinha um sorriso e tanto.

– Porra, Rodrigo! É seu filho, cara!
– Eu sei disso! Vai por mim, caramba! Não vou faltar como pai!
– Como não?!
– Não vou, cacete! Eu te mando uma grana!
– Grana, grana… não é disso que eu to falando!
– Ah, tá bom… vai começar com aquele papo de “filho crescendo sem pai”? Não sei se você percebeu que quem tá indo embora é você.
– Filho da puta!
Ok, eu sei que não deveria ter falado isso. Mas falei, e não era mentira, era? Eu deveria ter pedido desculpas, mas pedidos de desculpa não fazem o meu tipo.

Bruna tinha chegado àquela hora em que se percebe que não adianta mais tentar. Acho que, de uma maneira ou de outra, todos passam por momentos assim pelo menos uma vez na vida. Algumas pessoas desistem de tentar parar de fumar. Há aquele pai de família, casado há quinze anos que, de uma hora pra outra, desiste de tentar esconder sua real opção sexual e vai morar com um garotão. Há o engajado que um belo dia admite que o próprio bolso é muito mais importante do que qualquer discurso sobre elite e proletariado fedendo à naftalina. Bruna desistiu de acreditar que um dia eu poderia a retribuir, nas mesmas proporções, tudo o que ela sentia por mim. E eu não quis me esforçar para fazê-la mudar de idéia, pela simples razão de saber o quanto ela estava certa.

Não fiz questão de contrariá-la quando ela preferiu que eu a acompanhasse apenas até o elevador. Também não me senti ofendido quando a tentativa vã de beijar seu rosto depois de desejar boa sorte foi respondida com um amargo “não torne isso ainda mais difícil”. Difícil? O que ela não podia enxergar era que depois disso as coisas começariam a melhorar. Em pouco tempo eu estaria num emprego melhor e num apartamento menor, de aluguel mais barato. Ela estava voltando para a casa da mãe, teria ajuda para criar o nosso filho em um lugar calmo, limpo, tranqüilo. Difícil não foi o adeus. Difícil foi entrar no meu quarto, no quarto que naquele momento me parecia desnecessariamente grande, e perceber o quanto ele cheirava a talco para bebês.

Os bons modos nos ensinam a dizer “prazer” quando somos apresentados a outras pessoas. Pois a verdade é que, se conhecêssemos de verdade cada uma das pessoas que nos é apresentada, se soubéssemos as coisas que passam por suas cabeças, se ouvíssemos as coisas que falam ao telefone quando estão sozinhas, se pudéssemos acompanhá-las, sem sermos vistos, ao longo de um dia inteiro, se você pudesse me acompanhar ao longo de um dia inteiro, “prazer” seria a última palavra na qual pensaria ao me conhecer. Sou um pervertido, um viciado, um babaca incapaz de sentir algo além de desejo por qualquer mulher que cruze o meu caminho. Por outro lado, erram aqueles que me acusam de ser frio e egoísta. Eu amo meu filho, e eu penso no bem dele. Justamente por isso, não fiz a menor questão de pedir para que Bruna ficasse por perto. Justamente por isso, não tenho a menor dúvida: ele vai ser alguém melhor crescendo longe de um canalha feito eu.

5 Respostas to “Parte 3”

  1. Lara Says:

    Fascinante!!!!!
    Ótimo mesmo!!!!

    você escreve perfeitamente!!

  2. Mayara Says:

    Perfect!!!

  3. Daniel Barros Says:

    Ahhh, ta perfeito mesmo.

    Será que tem parte 4?rs

  4. Carina Says:

    Agora eu entendi! babacãão mesmo! =)
    E esse último paragrafo bateu firme aqui…

    bjcas

  5. karen Says:

    que final foi esse, Jorge?
    muito bom!!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: