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Besteira Acreditar

maio 7, 2008

Já circula por emails duas gravações prévias de músicas que farão parte do álbum Canções de Desassossego (ou Música Vulgar para Corações Surdos), disco de estréia da Harmada, banda nova de Manoel Magalhães (ex-Polar e ex-Columbia, e figura carimbada no meio independente carioca). As músicas Faça Por Mim e Besteira Acreditar são um prato cheio para fãs da fase mais orgânica do Radiohead (ou ainda Coldplay, Keane, etc). E a banda ainda promete toques de Smashing Pumpkins, uma versão em português para Lover, You Should’ve Come Over (Jeff Buckley), e a regravação de três faixas que estiveram presentes em A Mesma Pessoa no Mesmo Lugar, único ep da extinta Polar.

É esperar pra ouvir. E, por enquanto, a espera é embalada ao som da prévia de Besteira Acreditar.

“pensei em te ligar
dizer que volto a qualquer hora
mas perdi seu telefone
não entendo essa memória que me trai

perdão se deixei assim
o silêncio no seu quarto
ou motivo pra voltar

me diz se tudo é só distância
quem vai nos trazer de novo o chão?
e as luzes do meu bairro
parecem te chamar de volta
e é besteira acreditar no que dizem sobre nós
amor,
é bobagem…

pensei em te ligar
dizer que volto a qualquer hora
mas perdi seu telefone
não entendo essa memória que me trai

perdão se deixei assim
o silêncio no seu quarto
ou motivo pra voltar

me diz se tudo é só distância
quem vai nos trazer de novo o chão?
e as luzes do meu bairro
parecem te chamar de volta
e é besteira acreditar no que dizem sobre nós
amor,
é bobagem…

pra onde você vai?
quem te fez mudar de idéia e desistir de nós?
dizendo que a vida não é simples…
dizendo que me ouvir não faz sentido algum…
será que vale a pena acreditar?
esquece o que passamos pra viver aqui
ouvir o mundo agora é tão estranho
meu amor,
é bobagem…
é só bobagem…”

Gostou? Passa lá na comunidade da banda e deixe o seu email pra recebê-la.

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Entre um e outro

maio 4, 2008

É triste ter que admitir, mas uma hora eu precisaria acordar…

É só silêncio, a tevê desligada, as louças na pia, garrafas vazias. As toalhas, de tão velhas, rasgam quando as ponho pra secar. O chão do banheiro, lodo, poças d’água. Roupas sujas se acumulam, traças, camisas amarrotadas lembrando bons verões passados.

Quantos anos se passaram desde então?

Eu esperava na varanda, abria o portão, olhava pra rua. Passava horas repetindo esse trajeto. Entrava em casa, encarava o telefone, ligava a tevê, cochilava, acordava, e repetia tudo outra vez.
Havia dias em que saia cedo, tomava um ônibus qualquer. Andava quilômetros e quilômetros calado, sem falar com ninguém, sem olhar para os lados – mudo e estático até anoitecer. E então voltava para casa na esperança de uma porta aberta, uma lâmpada acesa, e a surpresa de lhe cruzar o corredor, do banheiro para o quarto, ou algo assim.

Por muito tempo eu fui seu homem, fui seu sonho. Fui tudo e todos, de todas as maneiras, pra ser sempre aquele que você quis ter por perto. Não sei contar em quantos me transformei, não sei contar quantos rostos usei ou quantas vezes cedi, quantas vezes admiti estar errado quando era minha a razão, só pra ver seus lábios arquearem, se moverem, ouvir sua voz dizendo que me amava e ter seus braços em torno do meu corpo.

Por muito tempo esperei o seu retorno. Bobagem! Não adiantou olhar a rua. O telefone não tocou. Nunca houve porta aberta ou lâmpadas acesas. Só o silêncio. Só a solidão. A sufocante solidão, seu relógio de pulso, todas as cartas, perfumes, vestidos… e suas fotos espalhadas pela casa.

Todos dizem que preciso reagir, que preciso me cuidar, voltar a fazer a barba. Insistem que sim, ainda preciso cortar e pentear meus parcos fios de cabelos, embranquecidos sem que eu me desse conta. Dizem que preciso de amigos, preciso dormir, preciso sorrir, preciso de novos perfumes. Falam para cuidar da pressão, sair com outras pessoas, me alimentar melhor, ir devagar com o vinho. Todos falam. Todos dizem coisas demais. E tudo o que eu precisava era ouvir que, quando eu menos esperar, vou chegar em casa e lhe encontrar sentada no sofá da sala, de frente para a porta, sorrindo para mim.

Deixei de acreditar, e é uma pena. Hoje enfim entendo que somos só eu e essa maldita casa vazia.
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ps.: parte 2 de 3 de Réquiem. As outras partes estão aqui (Réquiem, abril de 2005) e aqui (No frio das ruas, do mês passado).

qual o antônimo de “escapismo”?

maio 2, 2008

Acho que eu nunca quis voar. E Ícaro, bem… ele sempre me pareceu um tanto quanto bobo, prepotente, arrogante.

Diz, pra quê ficar distante? Por que ver as coisas por cima, de longe? A idéia de permanecer no chão, de encarar a realidade na linha do horizonte, sem precisar abaixar ou levantar o olhar sempre me soou muito mais interessante.

Jamais quis ser um pássaro, ser anjo, ter asas – nem de penas, nem de cera. Contento-me em ser humano, em ter os pés no chão.
Meus tombos nunca foram desastrosos, e o sol… esse jamais me fez cair.