Archive for the ‘contos & afins’ Category

Entre um e outro

maio 4, 2008

É triste ter que admitir, mas uma hora eu precisaria acordar…

É só silêncio, a tevê desligada, as louças na pia, garrafas vazias. As toalhas, de tão velhas, rasgam quando as ponho pra secar. O chão do banheiro, lodo, poças d’água. Roupas sujas se acumulam, traças, camisas amarrotadas lembrando bons verões passados.

Quantos anos se passaram desde então?

Eu esperava na varanda, abria o portão, olhava pra rua. Passava horas repetindo esse trajeto. Entrava em casa, encarava o telefone, ligava a tevê, cochilava, acordava, e repetia tudo outra vez.
Havia dias em que saia cedo, tomava um ônibus qualquer. Andava quilômetros e quilômetros calado, sem falar com ninguém, sem olhar para os lados – mudo e estático até anoitecer. E então voltava para casa na esperança de uma porta aberta, uma lâmpada acesa, e a surpresa de lhe cruzar o corredor, do banheiro para o quarto, ou algo assim.

Por muito tempo eu fui seu homem, fui seu sonho. Fui tudo e todos, de todas as maneiras, pra ser sempre aquele que você quis ter por perto. Não sei contar em quantos me transformei, não sei contar quantos rostos usei ou quantas vezes cedi, quantas vezes admiti estar errado quando era minha a razão, só pra ver seus lábios arquearem, se moverem, ouvir sua voz dizendo que me amava e ter seus braços em torno do meu corpo.

Por muito tempo esperei o seu retorno. Bobagem! Não adiantou olhar a rua. O telefone não tocou. Nunca houve porta aberta ou lâmpadas acesas. Só o silêncio. Só a solidão. A sufocante solidão, seu relógio de pulso, todas as cartas, perfumes, vestidos… e suas fotos espalhadas pela casa.

Todos dizem que preciso reagir, que preciso me cuidar, voltar a fazer a barba. Insistem que sim, ainda preciso cortar e pentear meus parcos fios de cabelos, embranquecidos sem que eu me desse conta. Dizem que preciso de amigos, preciso dormir, preciso sorrir, preciso de novos perfumes. Falam para cuidar da pressão, sair com outras pessoas, me alimentar melhor, ir devagar com o vinho. Todos falam. Todos dizem coisas demais. E tudo o que eu precisava era ouvir que, quando eu menos esperar, vou chegar em casa e lhe encontrar sentada no sofá da sala, de frente para a porta, sorrindo para mim.

Deixei de acreditar, e é uma pena. Hoje enfim entendo que somos só eu e essa maldita casa vazia.
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ps.: parte 2 de 3 de Réquiem. As outras partes estão aqui (Réquiem, abril de 2005) e aqui (No frio das ruas, do mês passado).

No frio das ruas

abril 1, 2008

Gosto do clima daqui nessa época do ano. E das ruas vazias, quase sem sons – exceto pelos grilos, e pelos cães que latem ao longe.
Gosto da solidão, da possibilidade de andar às duas da manhã sem ter que levantar o rosto ou tirar as mãos dos bolsos para um aceno, um “olá”, um cumprimento nada sincero para pessoas que não me importam existir ou não.
O que é cruel, e ainda assim às vezes penso, é que nada é eterno. Que esse é o meu mundo, é meu céu, meu inferno. E que “adeus” vai ser para sempre “adeus”, que quem partiu não haverá de retornar, e quem ficou, jamais terá um tempo, um tempo mínimo sequer, para dizer cada palavra que, por alguma razão, preferiu, na hora certa, guardar somente para si.

Disso eu não gosto. Mas penso.
***

Dobrava esquinas sem saber se estava mesmo no caminho correto. Perdi meu norte, a direção. Guardei minha dignidade no fundo de uma gaveta, entre lembranças, cartas, um relógio de pulso antigo, fotos… fotos dos meus velhos e esquecidos sorrisos.

Contava passos, me apoiava em muros.
Não é sempre tão quieto, tão vazio, tão sem vida por aqui?

Já não sei se aconteceu ou se era eu quem imaginava. Meus olhos embaçados doíam, meus ouvidos, meus pobres ouvidos quase surdos, nada confiáveis…
Havia tanta névoa no ar, havia tanto ar em meio peito, que em meio à noite fria do início de abril, pensei ter ouvido sua voz me chamar, jurei ter visto seu vulto a me seguir.

Tolice.
Você já não mora mais aqui.

Fim de jogo

fevereiro 1, 2008

Atravessa a rua em passos largos, respiração ofegante, fora da faixa e sem olhar o sinal. Vozes e buzinas ao fundo, ou ao menos o que pensa ser vozes e buzinas, já que não vê, necessariamente, qualquer pessoa ou carro. Só borrões. Cores distorcidas, figuras embaçadas. Delineador e lágrimas sujando as pálpebras, manchando a pele.

“Ele não tinha esse direito!”

Mais raiva que tristeza. Estranho, mas é decepção também. E é mais raiva que surpresa, embora ela não esperasse por isso.

Gostaria de fazê-lo engolir cada palavra depois do terceiro copo e do sétimo beijo, as mãos em sua coxa e o “preciso lhe contar uma coisa”. Se soubesse… se ela soubesse… o teria beijado outra vez, iria ao banheiro, voltaria se fazendo de desentendida. E se ele voltasse a dizer que precisava contar algo, diria “Tudo bem, me conta depois. Agora eu só quero que você me leve pra casa”, disparando um sorriso cínico do tipo “você entende o que eu digo”.
Ao menos por mais uma noite, ele teria deixado pra lá, não?

Eram só saídas. Saídas e sorrisos, alguns copos, algum suor, alguns suspiros, mas… não era sério. E era bom assim, ela acreditava.
“Aquele imbecil…”
Não houve necessariamente um começo. Não um começo especial, alguma data, algo que consiga se lembrar. E assim, já não saberia mais contar o tempo. Também não saberia dizer quantas outras pessoas haviam cruzado o seu caminho desde então (“ele também teve os seus momentos, não?”).

“Eu não entendo! Eu simplesmente NÃO ENTENDO! Não era pra ser assim… não, não deveria! Cada um em seu lugar, e tudo segue. Sempre que nós dois quiséssemos, mas… isso não quer dizer que… não, não pode ser assim!”

Senta no segundo degrau da curta escadaria de seu prédio. Acende um cigarro, desliga o celular. Aperta os olhos como se assim pudesse apagar de sua mente aquela lembrança recente: ele segurando sua mão, ele desviando o olhar, aquelas frases pausadas, a procura pelas palavras certas, o toque em seu rosto e o maldito “eu me apaixonei”.

Não havia mais nada a ser feito.
Se houvessem regras, ele certamente as tinha desrespeitado.

Depois

janeiro 13, 2008

Dias nublados, canções ensolaradas, viagens longas, frases curtas.

– Tá pensando em quê? – Ela me pergunta depois de alguns minutos de silêncio, olhos mirando o nada e cotovelos apoiados pouco acima dos joelhos.
– Oi? Ah… nada demais.

Calça jeans, mensagens de texto, o disco do Primary 5, dedos entrelaçados, analgésicos que não surtem efeito.

– Você tá meio distante…
Bobagem. São dois palmos, ela deitada, eu sentado.
– Não é nada, sério. Impressão sua.

Janelas abertas, a cortina se movendo devagar, sinal de brisa lá fora. Tomara que refresque. Tem feito muito calor por esses dias.
Nomes de cachorro, séries de tevê, rasuras no cartão-resposta de um concurso público para o qual não vou passar. A nova banda de uma antiga promessa a futuro grande compositor brasileiro, um copo de café, detalhes em
Vanilla Sky, perfumes, loções, vestidos e sapatos.

Olho para o lado e ela dorme. Peço um beijo e ela resmunga algo que não entendo. Toco seu braço, acaricio seu rosto, ajeito seu cabelo. A cubro com o lençol, beijo sua testa, pego minhas coisas e vou embora. Pensando em nada.

[ ]

dezembro 8, 2007

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

[TREVISSAN, Dalton. Apelo]

Me deparei com esse texto enquanto dava uma olhada em algumas provas antigas de concursos públicos. Tem esse clima de nostalgia que eu tanto gosto (“sempre tem alguém indo embora…”) e encontro mais em canções do que em palavras.
Não costumo postar textos de outros por aqui, mas aí está. Abro essa exceção.

Parte 3

novembro 20, 2007

– E você… não vai mesmo fazer nada, né?
O que eu poderia fazer? Ela parecia decidida dessa vez. Não seria certo atrapalhar. Não seria certo dizer “Calma! Pensa melhor se você tem certeza de que é isso mesmo que quer!”. Não dava pra fazer isso, caramba! Eu a conhecia, e apesar dessa ter sido uma das poucas vezes em mais de três anos que a vi realmente certa de uma decisão, sabia que a soma de meia dúzia de palavras com mãos ao redor de sua cintura e um beijo entre o pescoço e a orelha seria razão suficientemente forte para fazê-la mudar de idéia.
– Eu ajudo a arrumar as malas.

Não é difícil entender porque tivemos lá a nossa história. Vindos de cidades vizinhas do interior fluminense, chegamos a São Paulo mais ou menos na mesma época, com alguns meses de diferença. Graças a alguns amigos em comum e àquela coisa de “tenho uma amiga que se mudou para aí também por esses dias”, nada mais natural que, em pouco tempo, estivéssemos nos encontrando pelo menos duas vezes na semana. Acrescente aí alguns telefonemas e mensagens em alta madrugada. Acrescente aí o fato de que nunca fiz – e nem nunca quis fazer – esforço para resistir a sorrisos e, vai por mim, pelo menos há três anos atrás, Bruna tinha um sorriso e tanto.

– Porra, Rodrigo! É seu filho, cara!
– Eu sei disso! Vai por mim, caramba! Não vou faltar como pai!
– Como não?!
– Não vou, cacete! Eu te mando uma grana!
– Grana, grana… não é disso que eu to falando!
– Ah, tá bom… vai começar com aquele papo de “filho crescendo sem pai”? Não sei se você percebeu que quem tá indo embora é você.
– Filho da puta!
Ok, eu sei que não deveria ter falado isso. Mas falei, e não era mentira, era? Eu deveria ter pedido desculpas, mas pedidos de desculpa não fazem o meu tipo.

Bruna tinha chegado àquela hora em que se percebe que não adianta mais tentar. Acho que, de uma maneira ou de outra, todos passam por momentos assim pelo menos uma vez na vida. Algumas pessoas desistem de tentar parar de fumar. Há aquele pai de família, casado há quinze anos que, de uma hora pra outra, desiste de tentar esconder sua real opção sexual e vai morar com um garotão. Há o engajado que um belo dia admite que o próprio bolso é muito mais importante do que qualquer discurso sobre elite e proletariado fedendo à naftalina. Bruna desistiu de acreditar que um dia eu poderia a retribuir, nas mesmas proporções, tudo o que ela sentia por mim. E eu não quis me esforçar para fazê-la mudar de idéia, pela simples razão de saber o quanto ela estava certa.

Não fiz questão de contrariá-la quando ela preferiu que eu a acompanhasse apenas até o elevador. Também não me senti ofendido quando a tentativa vã de beijar seu rosto depois de desejar boa sorte foi respondida com um amargo “não torne isso ainda mais difícil”. Difícil? O que ela não podia enxergar era que depois disso as coisas começariam a melhorar. Em pouco tempo eu estaria num emprego melhor e num apartamento menor, de aluguel mais barato. Ela estava voltando para a casa da mãe, teria ajuda para criar o nosso filho em um lugar calmo, limpo, tranqüilo. Difícil não foi o adeus. Difícil foi entrar no meu quarto, no quarto que naquele momento me parecia desnecessariamente grande, e perceber o quanto ele cheirava a talco para bebês.

Os bons modos nos ensinam a dizer “prazer” quando somos apresentados a outras pessoas. Pois a verdade é que, se conhecêssemos de verdade cada uma das pessoas que nos é apresentada, se soubéssemos as coisas que passam por suas cabeças, se ouvíssemos as coisas que falam ao telefone quando estão sozinhas, se pudéssemos acompanhá-las, sem sermos vistos, ao longo de um dia inteiro, se você pudesse me acompanhar ao longo de um dia inteiro, “prazer” seria a última palavra na qual pensaria ao me conhecer. Sou um pervertido, um viciado, um babaca incapaz de sentir algo além de desejo por qualquer mulher que cruze o meu caminho. Por outro lado, erram aqueles que me acusam de ser frio e egoísta. Eu amo meu filho, e eu penso no bem dele. Justamente por isso, não fiz a menor questão de pedir para que Bruna ficasse por perto. Justamente por isso, não tenho a menor dúvida: ele vai ser alguém melhor crescendo longe de um canalha feito eu.

Parte 2

novembro 16, 2007

Fui para a sacada como se não houvesse mais ninguém ali naquele apartamento. Olhava para os prédios à minha frente, e para as pessoas e carros que passavam logo abaixo, sem conseguir me fixar em nada. Mãos e pernas tremiam ainda mais do que o de costume enquanto eu tentava sem sucesso entender o que realmente estava se passando ali.
Parado e mudo do lado de fora do apartamento, eu teria fumado um maço inteiro de cigarros caso não tivesse abandonado o vício alguns poucos meses antes. Por sorte, guardava uma garrafa de vodca barata em algum lugar da cozinha. Nunca uma porcaria como aquela foi tão necessária quanto naquele momento. Não fosse por conta da vodca, teria ficado ali naquela sacada, mais trêmulo e pálido que o habitual, talvez até anoitecer.

Primeiro passei por todo o apartamento, em direção à cozinha, olhando fixo para o chão. Só depois de dois copos bem servidos, com o terceiro em mãos, foi que consegui voltar para a sala. Ela ainda estava lá, é claro. Estava sentada em um dos cantos do sofá, com o rosto vermelho de quem já havia chorado, esfregando as palmas das mãos sobre suas coxas como fazia sempre que ficava nervosa e me encarando fixamente como se perguntasse “e agora, o que nós vamos fazer?”.

Até parece que tínhamos alguma alternativa.

Antes de qualquer coisa eu precisava me acostumar com a idéia. É claro que eu queria ser pai! A questão não era essa. Mas… sabe quando você está ouvindo Five Leaves Left, e quando Three Hours termina, você pula para Day Is Done ao invés de simplesmente deixar Way To Blue rolar? Não é que você ache a música ruim, só não é a que você está afim de ouvir naquela hora.

Moramos juntos por três meses, acho, mas estávamos separados havia umas duas semanas quando ela veio me dar essa notícia. Ela tinha ido para a casa de uma amiga. Aliás, em pouco mais de um ano, havíamos terminado pelo menos umas quatro vezes, e é possível que eu esteja sendo gentil nessa contagem.

Eu gostava dela. Eu realmente gostava dela. Quer dizer… gostava da companhia, gostava da segurança que era ter alguém por perto, gostava do sexo, gostava de ouvir o que ela havia entendido quanto aos filmes que assistíamos juntos. Mas, ainda assim, às vezes me cansava. Cansava do som da voz, do cabelo despenteado e do rosto inchado ao amanhecer, dos pés dela batendo contra minha canela naquela cama que insistia em parecer pequena. Cansava das mesmas frases, dos mesmos agrados, das mesmas surpresas que nunca surpreendiam mais ninguém além dela mesma. Cansava de ir sempre para os mesmos lugares com a mesma companhia. E era aí que a coisa toda desandava. Era aí que eu desligava o celular, ia pra outro lugar, saía com outras pessoas e, no dia seguinte, quando ela se achava no direito de me cobrar, a mandava para a puta que pariu e voltava a ser solteiro até o dia em que ela me ligava pela madrugada e me pedia pra subir. No fim das contas, a verdade é que ela sempre sentiu por mim algo bem mais forte do que consegui sentir por ela.
Mas que ninguém me acuse de não ter tentado! Talvez até por falta de vontade de sair por aí procurando outra pessoa (uma pessoa que quisesse passar mais que duas horas do meu lado), por preguiça, mas sempre tentava.

– Eu vou mesmo ser pai?
– Foi o que eu disse.
– Sério mesmo? Quer dizer, você tem certeza?
– Claro que tenho! Estou atrasada, fiz exame…
– Mas… é meu mesmo?
– É claro que é seu, seu filho da puta!
– Ah, é…
– Fala alguma coisa, caramba!
– Puta merda, eu vou ser pai!

Bruna voltou para o apartamento na manhã seguinte. E por aproximadamente um ano e meio, ficamos juntos e relativamente bem. O que não necessariamente significa que, por uma dúzia de vezes, eu não tenha me cansado dela e daquela barriga enorme. Dela e dos malditos desejos. Dela e do enxoval do bebê, e da escolha de nomes. E era aí que a coisa toda desandava. Era aí que eu desligava o celular, ia para outros lugares e saia com outras pessoas.

Uma boa pessoa

novembro 11, 2007

– Você não esperava que eu fosse me sentar aos pés da sua cama e fizesse massagens nas suas pernas, não é mesmo?!
– Não, claro que não!
– Então qual é o problema?
– Não é isso, quer dizer… só pensei que você poderia ficar um pouco mais por aqui…
Sorrio com ar de você sabe que isso não vai acontecer, e enquanto calço meus tênis me vejo sentado aos pés da cama. Por alguns segundos deixo minha mão tocar sua canela, e isso é o mais próximo de uma massagem que sou capaz, que estou interessado em fazer.

Aline não é má pessoa. Longe disso. Na verdade, ela até que é bacana demais para acabar apaixonada por um canalha como eu. Mas isso, é claro, é algo que nunca vou dizer.
Bem que eu queria evitar o dia de hoje. Bem que finjo que não a vejo, mas é difícil escapar de alguém quando essa pessoa atravessa a rua e senta do seu lado em uma lanchonete. Não tem como fugir de algo assim. Não dá pra limpar a boca, sorrir, cumprimentar, se levantar e sair. Eu posso até passar longe de ser o cara mais simpático do mundo – na verdade, eu posso até passar longe de ser qualquer coisa parecida com simpático – mas não a deixaria falando sozinha.

É sempre a mesma história: blábláblá, você está sumido, etc. Não importa se você vai sempre aos mesmos locais, se faz sempre as mesmas coisas – toma sempre os mesmos ônibus, compra pão, todo bendito dia, na mesma padaria, alivia seus resfriados e compra seus preservativos sempre na mesma farmácia. Simplesmente não interessa. Sempre vai aparecer alguém para reclamar do quanto você não dá notícias, não aparece mais e todas essas coisas. E essa, hoje, é Aline.
Com seu jeito rápido de falar, e sua mania levemente irritante de tocar meu braço a cada três frases, ela pergunta sobre meu filho (“morando com a mãe lá na cidade dela”), minha ex-esposa (“é, separamos há um tempo, aí ela foi embora e levou o garoto junto”), meus maus hábitos (“estou devagar, mas digamos que não sou propriamente alguém que se poderia chamar de bom exemplo.”) e toda a minha vida nos últimos oito meses. Diz “não acrediiiiito” e me faz repetir algumas vezes uma espécie de resumo em ordem cronológica dos Grandes Acontecimentos do tempo em que ficamos sem nos ver. Algo do tipo: “É, nós brigamos. Daí ela quis voltar. Aí acho que ela percebeu que se três anos de convívio e um filho não foram suficientes pra me fazer sentir por ela algo relativamente próximo do que ela sentia por mim, nada mais faria. Aí fui pra um apartamento menor. Aí consegui um emprego aqui perto”, etc. Penso em completar com “aí estava lanchando em paz quando você atravessou a rua e veio aqui me atrapalhar”, mas deixo pra lá.

Uma coisa que eu, de vez em quando, admiro nas pessoas é a capacidade de ignorar por completo as opiniões e as reações de outros diante de seus atos ou palavras. Somado ao largo e sincero sorriso, e à forma como ela prende seus cabelos deixando uma pequena mecha solta do lado esquerdo do rosto, talvez esse seja um dos charmes de Aline: a capacidade que ela tem de abstrair e continuar falando enquanto tudo que consigo é lhe retribuir com olhares de suposto espanto, palavras monossilábicas e sorrisos em canto de boca.

Penso melhor e percebo que talvez não tenha sido ruim ser abordado por ela assim do nada, bem na hora em que resolvo lanchar antes de seguir meu caminho. Penso melhor e deixo de lado as palavras monossilábicas (as troco por frases e perguntas clichês), e em pouco tempo sei que ela adorou “aquele filme que tem as músicas daquele carinha do Pearl Jam”, que tem um cara de nome composto que não é propriamente seu namorado (embora a leve para jantar todo final de semana), que se forma no final do ano e que comprou “um livro sobre blues… daquele cara de Anti Herói Americano”, mas que está sem tempo e ainda não o leu. E quando menos percebo estou no apartamento dela, com a desculpa de pegar o livro emprestado.

Livros, CDs, filmes, festas e outra meia dúzia de assuntos antes que jeans e camisetas se misturem pelo chão, e antes de uma estranha conversa sobre massagens e sobre minutos a mais, que não chegam a acontecer.

Essa é minha primeira semana de trabalho nesse bairro, num edifício a quinze minutos do condomínio onde Aline mora. A partir de amanhã, tomo outro caminho, passo por outra rua, pego outro ônibus e sumo, por oito meses ou mais.

Aline é uma boa pessoa. Eu é que não sou.

O bastante

novembro 6, 2007

Duas da manhã, ruas vazias, desertas, mas iluminadas. Fecha o guarda-chuva, diminui os passos e se sente melhor assim, se sente bem enquanto o frio sereno cai sobre seus ombros.
“And it’s hard to live and its hard to die, and it’s hard to give your heart away”. Onde foi que ouviu isso? Não consegue se lembrar. Em todo caso, “Viver é foda, morrer é difícil” também lhe vem à cabeça. Sabe que Renato tinha lá sua razão, e pouco importa se não há, pelo menos não durante essa noite, pelo menos não depois de fraudar olhares e sorrisos, alguém para quem possa, alguém para quem queira completar com o verso seguinte. Precisamos de nós mesmos. Manter os pés no chão, manter a mente em ordem. Nada lhe parece ser mais necessário que isso.

Amor não é o suficiente.
Essa é a única certeza que tem depois das últimas horas. A única certeza depois das últimas garrafas, depois de ouvir as lamúrias de um velho e sumido amigo, vivendo sua triste mudança de rotina, seu primeiro fim de semana na condição de solteiro, depois do término de um longo namoro de quase quatro anos.
Eles se amaram durante todo esse tempo, não?
Ele foi para casa bêbado, triste e com os olhos marejados.
Eles se amavam até o começo do mês, até duas semanas atrás.
Ela? Com esse tempo, com essa chuva que teima em cair de quinze em quinze minutos, é provável que sequer tenha saído. É provável que tenha ficado calada em seu quarto, ouvindo os cds que ganhou de presente ao longo desses anos, vendo suas fotos ou ainda aquelas peças estranhas feitas de durepox retorcido que fizeram juntos e ousaram chamar de artesanato.
É claro, eles ainda se amam nesse exato instante. Mas… que diferença isso faz? Não é tudo, não basta, não é… o suficiente.

Ainda digere a história do amigo. E pensa em como é estranho ouvir outra pessoa dizer que “teria sido mais fácil se tivéssemos brigado”, frase tão familiar.
Foram os livros. E os filmes. E todos aqueles malditos discos. “Não existe plenitude”, ele pensa. “E é melhor que nos acostumemos com a idéia. É melhor não pensarmos no assunto. É melhor… deixar o barco correr.”

“I will always, go by your side / but it’s hard to get drunk tonight / and It’s hard to smoke your mothers cigarettes / afraid of stealing / afraid of lying / afraid of losing my mind”. Ainda não lembra de quem era, mas tem quase certeza: era assim que terminava a canção.

Morfina

setembro 4, 2007

[Da série “escrevi e não gostei”, posto porque algumas amigas curtiram]
***

Eu lhe observo dormir.
Ao seu lado eu me atendo aos detalhes. Cabelos sobre o rosto, perna direita dobrada, som da respiração. O seu perfume inundando todo o quarto.
Sorrio e acaricio seu braço. E esfrego os olhos tentando espantar o sono.

Esse mundo é meu, mas você pode ficar.

O vento lá fora parece cantar. As paredes que nos cercam me parecem ser seguras. Nada vai nos perturbar agora. Você dorme e eu espanto os sonhos ruins. Apenas fique por aqui… esta noite e ao acordar. Esta noite, e amanhã. E sempre.

Seu perfume e o som da sua respiração. A forma como puxa o meu braço por cima dos seus ombros. Os resmungos sem sentidos ditos entre os sonhos.
Eu lhe observo dormir e, por um segundo, quase chego a acreditar que é real.
A vontade de perturbar seu sono por instantes, tocar seus lábios, guardar a sua imagem.
A vontade de ficar aqui pra sempre, de jamais acordar, de soprar bem baixo em seu ouvido que te amo, seja o nome que tiver, seja lá você quem for.