Archive for the ‘contos & afins’ Category

Dentes

agosto 28, 2007

Você me vê e sorri.
Eu, parado ali, banco de praça, cara emburrada, meio sem jeito. O mesmo cara de sempre.
Você também, pouco mudou. O mesmo casaco listrado, saia jeans, chinelinho de dedo. Os mesmos cabelos, o mesmo sorriso, o mesmo brilho no olhar. A mesma luz que já me fez engolir a seco, por tantas vezes, minhas pequenas e constantes frases de lamentações.

Há quanto tempo? Há quanto tempo não cruzamos os mesmos caminhos? Há quanto tempo não andamos com a mesma turma? Há quanto tempo – admito – sequer lembrava que você existia?
Mas agora você atravessa a rua. Para mim, quase slow-motion. Parece ter pressa, mas sua expressão não esconde: está feliz em me ver.
Movimenta a cabeça, e, delicada, a mão direita, acenando com um pequeno tchau.
Por um instante penso em centenas de coisas – em frases, em festas, em roupas, em qual será o número do seu telefone e em o que você vai fazer sábado a noite. Em como você é absolutamente linda em todos os aspectos que já tive a oportunidade de conhecer, do tipo como-adoraria-passear-de-mãos-dadas-com-essa-mulher, em dias cinzas como hoje, em dias de sol como ontem.

E agora você passa quase ao meu lado, ainda sorrindo.
Eu, parado ali, banco de praça, não mais emburrado, ainda sem jeito, retribuo com um “olá”. Três letras, uma palavra, e um imenso prazer em dizê-la.

Acontece quando menos se espera.
Aqui vou outra vez…
Humano, fraco, ranzinza, clichê. Quem sou eu para evitar?

No fim só quero estar onde morar o teu sorrir.

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Sobre promessas não cumpridas e pessoas não-especiais

julho 2, 2007

Enrolada em seus lençóis ela sorria, enquanto, em silêncio, eu levantava de sua cama. Buscava pelo chão do quarto as minhas roupas, poucos minutos após ter encontrado, no calor de seu corpo, o prazer e o remorso que álcool algum poderia me dar.
Minha cabeça ainda estava pesada, a boca amarga e a respiração ofegante. Não encontrava meus sapatos e ela achava graça quando eu limpava do meu rosto o suor com a manga direita da camisa de malha branca.

– Debaixo da cama…
– Oi?
– Os sapatos. Foram parar em baixo da cama.
– Ah, sim…

Eu mal conseguia olhar em seus olhos. Não que não fosse bonita, não que não cheirasse bem, não fosse legal e, até certo ponto, tivesse uma boa conversa. Mas não a queria enganar. Eu me esforçava para lembrar quanto tempo havia se passado entre o primeiro e o último gole, o carinho na face, a mão na cintura, promessas falsas sussurradas ao ouvido. Entre o sorriso de “você diz isso pra todas” e a mentira de “você é especial”. Entre o convite de “venha comigo” e a dúvida de “não tenho certeza”
Não. Eu já a havia enganado uma vez e não poderia repetir a mesma coisa, não na mesma noite, não enquanto o quarto não parasse de rodar.

Peguei minhas chaves, meus óculos e minha carteira. Ela quis mais um beijo, apertei sua mão e sim, a beijei. Na testa.
Um carinho em sua cabeça, um “você me liga quando?” e um “não sei… talvez até o fim de semana”.
Apesar de tonto, precisava andar, e a idéia de me trancar em uma caixa suspensa no ar não parecia agradável ao meu estômago. Me apoiei no corrimão e, não sem certa dificuldade, mãos trêmulas, acendi um cigarro e desci pelas escadas.
Sim, eu fui embora. E não liguei. E não voltei. E nunca mais voltei àquela cidade outra vez.

Estranho. Ela não foi especial, e, ainda assim, jamais me esqueci daquele rosto.

Paralelos

abril 2, 2007

Encosta a cabeça no meu peito e faz que dorme. Eu me ajeito, ela se esparrama.
O táxi vai devagar, mas quem se importa? Cobrou pela viagem, tudo bem, pode ir sem pressa.
Beto e o motorista conversam qualquer coisa sobre futebol, ou sobre velhos pedestres bêbados, ou sei lá o quê. Eu mal ouço, e nem ligo.
Enquanto afago os cabelos mal tingidos de minha pequena garota, tenho a certeza de que Lídia tem o perfume que eu sempre quis sentir.

Às vezes tento entender como foi que aconteceu, se somos mesmo assim tão diferentes…
Eu visto jeans e uma camisa vermelha de malha. Ela usa sandalhas e um pequeno e leve vestido de alça branco dois palmos acima do joelho;
Eu ouço bandas estranhas e ela gosta de novela;
Acendo um cigarro. Ela se olha no espelho;
Eu peço uma cerveja, ela demora a me beijar.

Somos de mundos desiguais. Eu sou de um mundo onde vivem perdedores. Onde habitam aqueles que já não acreditam mais, os que desistiram de tentar, os que tentaram sem conseguir, os que tentaram, conseguiram, se arrependeram e passam os dias pensando em como teria sido melhor se houvessem desistido sem nunca terem tentado. Sou de um lugar onde a dor não se cura, mas se mascara com um porre. Dos que rasgam fotos, queimam cartas e tentam em vão não lembrar. De um lugar onde a carência e a falta do último amor são esquecidas por minutos nos braços da primeira ruiva vagabunda que se possa encontrar, para tempos depois serem fortes como jamais haviam sido. De um lugar onde falhamos, pedimos perdão e até somos perdoados… mas onde nada volta a ser como era antes. Ela… ela é do mundo dos sorrisos. Do paraíso onde sempre há uma nova esperança, onde muito pouco é perfeito, mas… e daí?! Se não deu certo é bola pra frente, a vida segue, façamos o melhor! Ela é de um mundo em que não importa o tamanho da ferida se tudo um dia vai cicatrizar. De um mundo onde cada nova paixão é sempre como a primeira, e as pessoas se entregam de verdade, sem receios e sem reservas. De um lugar onde guardanapos escritos “eu te amo” são belas e importantes recordações, de onde “eu te amo”, dito, ouvido ou escrito sempre soa como sincero, não importa quem declara. De um lugar onde a saudade existe sem ser triste. De um mundo em que as pessoas são fortes o bastante para perdoarem os piores erros, mas têm orgulho suficiente para não voltarem atrás.

Eu ou ela, quem está mudando? Quem está entrando no mundo de quem?
Tudo é tão bom que às vezes tenho medo.
Ponho a mão em seu joelho. Lídia abre olhos, me olha, levanta, toca meu rosto e me beija de leve, como se dissesse “Não pense nessas coisas! Está tudo bem agora!”, adivinhando meus pensamentos.

O carro pára e eu a acompanho até o portão. Segurando suas mãos, calado, a encaro como se fosse possível dizer tudo em apenas um olhar. Ela, talvez ainda mais que eu, entende, e sorri desviando os olhos.

A pedido de Beto, o motorista buzina. Um beijo de boa noite e eu volto para o táxi.

Sei que um dia isso também vai acabar, e quando acontecer, pode ser que eu perceba que ninguém mudou e que o meu mundo é exatamente o mesmo de todas as outras vezes. Uma coisa porém talvez eu já tenha aprendido: para que pensar nisso? Esse ainda é só o começo!

A caixa de recordações

março 28, 2007

Encontro meio ao acaso, sem querer. Dentro de um pedaço amarelado de papel, que um dia já foi algo parecido com uma carta, meio sem brilho, envelhecida.

Foi a primeira, não seria a última.

Tinha 13 anos. Ela, 12. Era inverno e ela, que havia chegado no bairro nas férias de meio de ano, tomava o ônibus duas paradas depois de mim. Com seus cabelos de fios ondulados castanho-claro, presos meio que de qualquer jeito, magra como toda garota de 12 anos deveria ser e metida dentro de seu agasalho verde-vagabundo, subia os degraus me procurando, correndo seus olhos tímidos e talvez tristes por toda a lotação, até me achar.
Eu percebia, claro, mas bobo que era (não que tenha mudado por completo, mas dez anos nos ensinam muitas coisas), sorria apenas. Sorria e a encarava durante quase todos os 15 minutos do trajeto. Por vezes, ela desviava. Por outras, olhava de volta. E então puxava a cigarra e desaparecia em meio à nuvem de estudantes barulhentos.
No ponto seguinte, descia eu. Eu e a nuvem de estudantes barulhentos que estudavam na mesma escola que eu, dois quarteirões após a dela.

Foi assim por mais de uma semana, acho. Mas então um dia, um lugar vago ao meu lado, e ela o ocupou. Sem sorrisos ou encaradas, apenas nós dois, lado-a-lado, olhares congelados em direção a algum lugar que não sabíamos bem onde era, mas parecia ficar há dois palmos à frente de nossos olhos, embora não enxergássemos.
O que eu faço? O que eu falo? O que eu penso?
Nada. Por dúvida, nada. Foi assim desde sempre.
Antes de descer porém, ela, mais esperta que eu, deixou sobre minha perna um pedaço de papel. Olhei rápido para ela, que beijou meu rosto, corou e desceu. Não sem ser alvo de risadinhas e piadas de toda aquela barulhenta turma entre 11 e 14 anos.

O que dizia exatamente não fazia qualquer diferença. Menos de cinco horas depois estávamos numa pequena rua ao lado da escola em que ela estudava. Trocávamos meia dúzia de palavras, corávamos e experimentávamos beijos desajeitados e sarros desengonçados.
No dia seguinte, fomos novamente sentados lado-a-lado. Ela me trouxe uma fotografia, ela na proa de uma barca, olhos apertados por causa do sol, o mar ao fundo. Gostei e guardei.

Aquilo tudo durou uma eternidade: três semanas. Ônibus de segunda à sexta, saída da escola dia sim, dia não. Então ela resolveu que gostava de um garoto da minha rua, não de mim. Ele, um meio babaca e ano mais velho que, vez por outra, tomava a mesma lotação que nós, uma parada antes da minha. Alguns dias depois, era por ele que ela procurava, correndo seus olhos tímidos e talvez tristes por toda a lotação, até achar.
Passei a ir para a escola um pouco mais tarde, e, no alto do orgulho ferido, julguei ter dado o troco certo quando, em pouco tempo, passei a sair com uma menina da sala dela, uma baixinha bem arrumada, de cabelos pretos e lisos, que tinha em seus olhos puxados o maior dos seus charmes.

Isso tudo foi há muito tempo. Depois a vida correu: outras escolas, outros ônibus, não-mais-escolas, garotas novas no bairro e todas as coisas do tipo. Quebrei a cara por dezenas de vezes. E ela também. E as outras também.
Dela, por fim, restou apenas essa foto, e esse papel amarelado, com palavras erradas escritas em letra infantil. As primeiras recordações, não as últimas. De outras, as vezes nada, ou outras fotos, outras cartas (algumas de verdade), livros, CDs, filmes, passagens, ingressos de shows e até um anel e uma pulseira.
Só pequenas bobagens, era uma vez, e isso é tudo o que nos resta afinal. É assim pra todos nós: a sua história também cabe no fundo de uma gaveta.

Vapor e fumaça

fevereiro 27, 2007

– Não quer esperar eu passar um café?
Hmm… proposta tentadora, mas acho melhor não. Já vai amanhecer…
– E qual o problema?

Ela me olha com cara de “você sabe” enquanto ajeita no belo e pequeno magro corpo a camisa amarela de malha vagabunda.
Sai do quarto prendendo os cabelos enquanto eu ainda me esparramo pela cama.

– Ei, onde eu acendo a luz do banheiro?

Não tem jeito. Tenho mesmo que levantar. E até que sou rápido nisso, mas sempre me enrolo na hora de achar meus chinelos.

– Pronto!
Brigadinha! – diz enquanto abre um sutil sorriso amarelo. E se o cheiro combinado de cerveja + cigarro não é o melhor possível, tudo bem. Em horas como essa não chega a incomodar.

Ela volta ao quarto, eu lavo meu rosto. E de uma vez por todas, eu preciso me barbear! Isso coça, esquenta, incomoda, mas sempre em que penso em tirá-la, alguém como ela vem dizer que “essa barba lhe caiu muito bem, viu?”. Assim eu deixo pra lá, sabe como é…

– Cadê meu cigarro? Você viu?
– Não vi não! Você trouxe pra cá?
Filho da puta!
– Que foi?
– Ah! Dane-se! Compro outro ali fora.
– Eu, ein…

Enquanto me espreguiço em pé, ao lado da cama, ela abre meu armário e se olha no espelho. Retoca o batom, confere os cabelos. Vira de costas, olha pra trás, ajeita sua jeans.

Vou à cozinha e preparo a cafeteira.

– Não quer mesmo esperar um gole?
– Gostaria, mas estou sem tempo.
– Tudo bem.
– Então… já vou indo.
– Ok. Eu… te ligo?
Hmm… talvez. – e vai em direção a sala.
– Deixa a porta aberta, por favor.
– Oi? Por que?
– Já vou aí. Quero te ver descendo o corredor.
– Mas… nos vimos a noite toda!
– Vimos? Bem… pra mim… aquilo tinha outro nome.
Bobo! – diz enquanto ri.

E quando some de minha vista, me sirvo uma boa xícara de café. Caminho lentamente até a sala e me apoio no portal. Saco do bolso o isqueiro e o amassado maço que escondi da pequena em meio a noite anterior, acendo meu primeiro cigarro nos últimos três anos e a observo, meio apressada, descendo as escadas do prédio.

No silêncio do dia que amanhece, entre o vapor do café e a fumaça do cigarro, quase vejo o velho Dylan vindo pra me dar razão.
Talvez seja verdade. Os ventos da mudança estão soprando novamente.

Sobre como as pessoas mudam (mas não deixam de ser quem sempre foram)

fevereiro 26, 2007

– Não tenho mais porquê ser a mesma pessoa, saca?
– Claro que não tem! O tempo passou!
– E eu tenho que pensar nas crianças, cara! Não tem como eu querer ser a mesma pessoa que eu era quando tinha 14, 15 anos.
– Que bom ouvir você falando assim.
– Eu fiz muita merda. Muita mesmo, e você sabe. Mas tenho que pensar nos meus filhos. Não é porque to por minha conta outra vez que vou voltar a fazer o que fazia antes.
– Olha, sinceramente, eu fico muito feliz em ouvir você falar essas coisas. A gente ficou muito tempo sem conversar, não dava pra ter noção de que você havia realmente amadurecido assim.
– Vinte anos e mãe de dois filhos, rapaz! Não dá pra brincar.
– Lembra daquele churrasco no seu aniversário de… de quantos anos?
– De 12! Claro que lembro! Tem foto de vocês aqui! Tá em algum lugar do quarto da minha mãe.
– E agora você com esse papo de mãe, toda consciente!
– Pra você ver.
– Quanto tempo a gente não parava pra conversar direito mesmo, ein?
– Ah… há quase cinco anos!
– Tudo isso?
– Por aí.
– Nossa, a gente precisa mesmo colocar a conversa em dia!
– Ué, a Ana tá me chamando pra assistir Mr. Catra no sábado. Vamos?
– Hahahah, Catra?! Eu?
– E você acha que eu gosto?
– Então vamos!
– Pega mais um pedaço dessa lasanha então!
– Dá mais aí!

Um dia entre muitos

fevereiro 24, 2007

Descem na estação final, Central do Brasil. Antes de seguirem, param, pedem um “açaí completo” para os dois. Ou seria um para cada? Isso não importa. Acordaram cedo, precisam se alimentar.
Pela estreita calçada, quase toda impregnada pelo mal cheiro de foligem, poeira e urina, voltam pela Presidente Vargas em direção à Praça XI. Mãos dadas, claro. E os dois concordam que o Rio do samba, suor e calor fica muito mais bonito em dias de frio, com nuvens no céu.
Concordam e sorriem.
Chegam ao destino: um grande prédio quase em frente ao edifício dos Correios. Ele precisa ir embora, ela precisa subir. Mas chegaram cedo, podem esperar. E ali embaixo, abraços, beijos no rosto, sorrisos.

– A gente é muito grude, né?
Ela entende exatamente o que ele quer dizer.
– Somos, mas nem ligo! – e abre um belo e sincero sorriso.
– Todos diziam que iríamos mudar…
– Ainda bem que não mudamos. Eu gosto de como estamos.
– Eu também. Mas as vezes tenho medo de ser “doce” demais, grude demais.
– Eu nem ligo. Eu gosto, é sério.
– Se você diz…
– Não quero que a gente mude.
– Nem eu. Nem eu…

E quietos, abraçados – ela à frente dele, rostos próximos, quase colados –, observam os carros apressados, os ponteiros dos relógios, as pessoas sem brilho. Mas ele precisa ir embora, ela precisa subir.

– Acho que já vou.
– É, também está na minha hora.
– Boa prova, amor.
– Boa aula, amor.
– Liga pra avisar como foi?
Hmm… só estou sem crédito pra ligar, mas posso mandar mensagem.
– Então tá.
– Boa sorte, bom dia, adoro você.
– Boa aula, bom dia, também adoro você.

Ele atravessa a rua e segue para o ponto de ônibus. E mesmo sabendo que não há nada de tão difícil assim, quase cruza os dedos. Mas não acredita nisso, deixa pra lá. Olha para trás, ela ajeita o cabelo, abre um sorriso, acena, vira e entra no prédio.
Em poucas horas, ela passa na prova. Assim, em algum tempo, pode começar a faculdade. Para ela, parece algo comum, não tão importante assim. Já para ele… ele é só orgulho.

Mas isso tudo foi há muito tempo atrás.

mais arquivo

fevereiro 14, 2007

Enquanto não consigo escrever nada de novo, de novembro de 2005. Acho que ele não chegou a ter um título propriamente dito, mas eu o chamava de “tudo está certo num quadro tão torto” (sim, aquele trechinho de uma letra do Violins, pra variar…).
***

Quando a estrada apontar aquela curva, quando o carro cruzar aquela ponte, engula suas lágrimas, recomece sua vida.
Quando eu abrir os álbuns, verei apenas os sorrisos, sem me prender aos seus olhos. Aliás, sem me prender ao meu rosto, tão diferente, e a cada dia mais…
Quando o carro cruzar as montanhas, aperte com força o volante, respire fundo, olhe tudo à sua volta. este é um novo dia, um novo despertar, uma nova vida… pra você.

Menos garfos nas gavetas, menos pratos sobre a mesa, e tudo bem, se por enquanto, alguns telefonemas além do normal.

Os novos amigos são os velhos amigos, ao menos para mim.

Ainda é a mesma garrafa… mas o café já não tem o mesmo gosto;
Ainda são as mesmas roupas, mas já não brilham quanto antes;
Ainda é a mesma tevê, mas, graças, as pilhas do controle acabaram.

Eu não prometi quadros sem falhas, paredes sem rachaduras, e você nunca me cobrou. Inocente fui, ao acreditar que estava tudo bem, tudo perfeito…Você buscava tintas fortes, você buscava placas de concreto…
Você esperava pelo que eu nunca seria capaz de lhe entregar.

Seu beijo teve gosto de nunca mais.
A partida do seu carro teve som de “eu sobrevivo”.
E minha não lágrima me trouxe o calor que sente o quarto colocado de uma corrida qualquer.

A casa está maior agora;
O lençol agora é só meu.

E eu não sinto sua falta, eu sinto seu perfume.

“Um Táxi Com O Marillion”, por Carlos Eduardo Lima

janeiro 31, 2007

Exceção por esses lados. Acho que é a primeira vez que reproduzo assim, na íntegra, o texto de outra pessoa. Trata-se de Um Taxi Com O Marillion do CEL, que recentemente participou do projeto Mojo Books, escrevendo sua versão literária de Comes A Time, do Neil Young.

Quatro razões para gostar desse texto: a) Marillion é, por mais que eu fique muito tempo sem ouvir, uma banda do coração; b) a forma como o CEL escreve, pontua etc é o tipo de escrita que me agrada e de certa forma até inspira (muito do que ele diz ao longo do texto poderia vir a ser dito por mim daqui algum tempo, sem falar em coisas que eu talvez já tenha dito, com outras palavras); c) gente que entende de música como ele, o Mac, o Inagaki e outros são sempre dignas da minha admiração; d) to catando quase tudo do cara no slsk agora.

Com vocês, o texto:

 

Um Táxi Com O Marillion

Você lembra de 1985? Eu lembro. Há vinte anos que procuro por alguma coisa que ficou perdida naquele ano estranho. Sabe como é, algumas desilusões, algumas frustrações, algumas empreitadas bem sucedidas, uns poucos arrependimentos, afinal de contas, ter quinze anos em 1985 ainda era algo light e que exigia pouca responsabilidade para com os outros e o mundo. De qualquer forma, por uma maneira um tanto óbvia, me lembro de 1985 em forma de música. Só que, como já disse em outras Blips do passado, a música tem uma característica estranha de se travestir de acordo com o grau de afeto que sua memória lhe confere.

Explicando: se você viveu um momento bom e ele, por algum motivo, foi sonorizado por uma música ruim, um abraço para você, sua trilha sonora vai obrigatoriamente passar por aí em recordações futuras. A minha trilha sonora internacional de 1985 gira em torno de quatro discos. The Head On The Door, do Cure; The Dream Of The Blue Turtles, do Sting; Songs From The Big Chair, do Tears For Fears e Misplaced Childhood, do Marillion. Sei que poderia ser muito melhor. E também pior. Para minha felicidade, Dire Straits não grudou na minha cabeça nessa época. Mas não posso exatamente contar vantagem do que me lembra esse ano tão querido.

O grande lance nisso tudo é que eu não tinha o Misplaced Childhood do Marillion há até poucos dias. E comprei hoje. Explico: em 1985 eu tinha o vinil. No advento do CD, a obra dos progressivos ingleses foi adquirida prontamente. Nas idas e vindas da existência, o disquinho veio e foi. E, para minha surpresa, ele foi e não voltou. Erro corrigido hoje. Com classe. Me dei ao trabalho e ao gasto de comprar uma versão dupla, com o disco propriamente dito e uma série de outtakes e lados B. A glória maior que eu poderia querer.

Eu precisava ouvir aquilo de qualquer jeito. Das músicas em suíte, que formavam o antigo lado A do vinil, eu ainda sei a letra de cor. São mais de trinta minutos ininterruptos de verborragia simbolista, parida pelo então vocalista Fish, sobre juventude perdida na Inglaterra oitentista. Dane-se, eu amo. A caminho do trabalho, atrasado, tive que lançar mão de um táxi e, surpreso com minha própria cara-de-pau, perguntei ao senhor que dirigia o Santana se ele poderia dar a licença de ouvir o disco. O senhor ouvia tango, Por Uma Cabeza, conhecido por muitos como o tango que toca em Perfume de Mulher, no qual Al Pacino dança com Gabrielle Anwar. Enfim, o tango, que é lindo, foi sacado do CD player e deu lugar à versão alternativa de Heart Of Lothian. E eu cantei a letra toda, com vontade, imitando o sotaque escocês de Fish.

Vibrei nos maravilhosos e um tanto flácidos versos “It’s six o’clock in the tower blocks, stalagmites of culture shock, and the trippers of the light fantastic boedow, hoedow, spray the pheremones on this perfume uniform”. Ou “The anarchy smiles in the royal mile” ou ainda “Rooting tooting cowboys with lucky little ladies on the watering holes, they’ll score the friday night goals”. Nossa, isso tudo é muito legal. Cantando loucamente no táxi atingi o bairro da Tijuca, local de trabalho. Agradeci imensamente ao motorista e percebi que saltei do táxi com quinze anos de idade. Quase parecia que era do velho Integração Metrô-Ônibus que eu saltava, rumo ao velho Colégio Santo Agostinho.

Sobre o disco do Marillion, recorro à velha verdade de que não adianta entender baldes de música, basta sentir alguma coisa boa para a música ser boa. Com quinze anos a gente entende melhor essa máxima do que com 34. Ou mais. Talvez seja um caso de inversão proporcional do gosto, vá lá saber. E, só pra constar, esse é o disco que tem o maior hit da carreira da banda, Kayleigh. Só soube que era um nome de mulher recentemente. Talvez com quinze anos eu intuísse essa verdade.

Ponha essa venda nos meus olhos.

janeiro 27, 2007

Texto escrito (ou pelo menos postado) em 24 de abril de 2005.
Para entender, leia o post anterior.

***

Certas coisas deveriam simplesmente não acontecer. Como quando aquela vez em que você apareceu no tal ensaio, de uma banda que nem sequer chegou a acontecer. Lembro de como você estava sem graça, ali, sentada, olhando para cada um de nós, talvez prestando atenção na crueza do som, ou no prazer que aquilo, apesar de tosco, nos proporcionava.
Você deixava escapar sorrisos, que eu praticamente ignorava, quando um de nós fazia alguma piada.
O baterista olhava. O guitarrista olhava. Mas você era a garota do baixista.
Certas histórias deveriam ser rasgadas antes que pudessem se tornar realidade. Como quando fomos todos nós (eu, dois amigos, umas novas amigas – entre elas, você), no medíocre cinema local.
Algumas verdades não deveriam ser reveladas. Como quando você me contou de tudo que havia sentido um dia.
Há pessoas que deveriam saber esquecer, desistir, abrir mão, mas no tempo certo. Diferente de tudo o que eu fiz, que insisti, que cavei, que quis trazer a tona algo que já havia apodrecido dentro de você.
Há frases que não devem ser ditas, possibilidades que não devem ser cogitadas, oportunidades que devem ser esquecidas.

Nunca fui forte.

Deveria haver alguma forma de desfazer coisas das quais os efeitos foram os piores possíveis.
Eu passo os dias tentando aceitar, e as noites tentando lhe convencer, e aos meus amigos (os poucos que sabem de tudo, ou quase tudo), e mesmo a mim, que estou errado, que nunca existiu nada, que nunca valeu a pena, que se aconteceu, agora é apenas passado, e que meu coração está vazio, como naquele dia de chuva, em que conversamos bobagens, sem que certas cortinas houvessem sido abertas.
Mas não está.
Meus sorrisos nunca foram tão plásticos. E você… talvez não desconfie disso.

Não é fácil simplesmente apagar da mente todos os dias, todas as palavras, cada olhar, cada movimentar de lábios, cada abraço. Eu gostaria de aprender com você, que, pelo jeito, conseguiu facilmente desempenhar sua missão.

Eu vou fingir, festejar, sorrir. Vou celebrar tudo o que eu não sou, tudo o que nunca fui, e tudo o que não tenho certeza se chegarei a ser um dia. Tudo o que eu não digo, em cada entrelinha, não só do que eu escrevo, mas do que vivo, do que falo, mesmo quando os assuntos são outros.

Sobre certas histórias, não consigo simplesmente contá-las, com começo, meio e fim. Talvez por não existido cada um dos três estágios de forma definida. Por isso sempre complico um pouco mais.

Mas hoje não tem festa, não tem amigos e nem analgésicos. E é por isso que talvez, só por hoje, eu não esqueça de coisas que nunca deveriam ter acontecido.